Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
8º Artigo
5 de Agosto de 2006


Circuito FPT/CIMA – a herança do Grande Prémio TMN

O Grande Prémio TMN e o Masters TMN nasceram em 1995, quando eu estava no auge da minha carreira jornalística ligada ao ténis e tive o privilégio do Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports (JLS) designar-me ‘Press Officer’ do circuito e do torneio de encerramento, cargo que exerci até à edição de 1999, inclusive.

Nutro, por isso, um carinho muito especial por aquele esforço da JLS em unificar uma série de torneios que andavam espalhados pelo país fora, muitas vezes sem qualquer lógica de calendarização, prejudicando jogadores, patrocinadores e até mesmo os briosos organizadores que teimavam em remar contra as dificuldades que todos sabemos existir diante de quem comete a “loucura” de oferecer prémios monetários em Portugal.

Reconheça-se que a Federação Portuguesa de Ténis (FPT) demitiu-se historicamente desse papel que lhe deveria caber, limitando-se a agrupar eventos e a inseri-los num calendário anual que agora, felizmente, graças às novas tecnologias, pode ser consultado na Internet.

Ao criarem-se objectivos comuns, como uma classificação que no final do ano apurava os melhores para o Masters – o saudoso ‘Ranking’ Jornal do Ténis – e a existência de um ‘Bonus Pool’ que distribuía avultadas quantias pelos melhor classificados dessa hierarquia, todos os torneios ficaram a ganhar.

O pagamento das bolas e das equipas de arbitragem, bem como uma cobertura extensa do circuito no Jornal do Ténis e a oferta gratuita de um Gabinete de Imprensa, foram vantagens nada desprezíveis, que valorizaram e facilitaram o trabalho dos organizadores de torneios.

Aos poucos, o Grande Prémio TMN foi-se impondo e o Masters ainda mais, chegando-se muito rapidamente ao ponto de o nível de jogo praticado, a qualidade organizativa, a mediatização e a adesão dos melhores tenistas nacionais ser superior no Masters do que no Campeonato Nacional Absoluto. Tal como disse o Leonardo Tavares na cerimónia de entrega de prémios de 2004, o Masters TMN já era o principal torneio português a nível interno, uma consequência de, por um lado, a JLS ter efectuado um excelente trabalho, e de, por outro, a FPT ter deixado cair o Campeonato Nacional nas ruas da amargura.

A dada altura, João Lagos teve a ideia de fundir o Campeonato Nacional com o Masters e escrevi, então, nas páginas do jornal Record, que partilhava da sua opinião a 100%. Poderíamos ter feito, naquela altura, uma competição fantástica para o ténis nacional, desde que a FPT não repetisse erros do passado e soubesse negociar duramente os seus interesses, não se vergando totalmente à JLS.

Mas tal como sucedeu tantas vezes no passado, as duas instituições andaram a puxar a corda cada uma para seu lado sem chegarem a acordo. Aliás, a FPT, sem tornar o Masters TMN num evento proscrito, olhou-o sempre de soslaio, como um concorrente do Campeonato Nacional Absoluto, nunca lhe atribuiu pontos para o seu próprio ‘ranking’ anual, o que sempre me pareceu um erro estratégico crasso.

Verdade se diga que, nesse aspecto, a JLS soube dar uma chapada de luva branca e introduziu no regulamento do Grande Prémio TMN a obrigatoriedade de se jogar o Campeonato Nacional Absoluto para quem quisesse qualificar-se para o Masters TMN.

Mais recentemente, a JLS propôs à FPT juntar o Campeonato Nacional Absoluto ao Troféu RTP, o chamado pré-qualifying do Estoril Open. Uma vez mais, a ideia pareceu-me positiva para o ténis nacional e passível de conseguir algumas vantagens bem negociadas para a FPT, que nunca teve qualquer palavra a dizer no Estoril Open, o principal torneio de ténis português. Foi uma oportunidade perdida, porque, ao contrário do que possa pensar-se, o Troféu RTP deixa muito a desejar em vários sentidos e sairia claramente reforçado pela união ao Campeonato Nacional Absoluto. João Lagos percebeu-o e estaria provavelmente disponível a ceder em alguns aspectos que pudessem beneficiar a FPT no Estoril Open.

Entretanto, no início desta época, a JLS anunciou o fim do Grande Prémio TMN e do seu Masters. Deixou no ar a hipótese de fazê-lo renascer em 2007, sem nunca dar a certeza. Tal atitude abriu, obviamente, o mercado a quem desejasse tomar a iniciativa de substitui-lo. Lembro-me, aliás, de, na década de 90, João Lagos dizer-me que um dos seus sonhos era poder aliviar um pouco a sua pesada máquina de realizações em prol do ténis português, mas que só poderia fazê-lo quando alguém quisesse pegar na sua herança. «Organizar torneios nacionais e publicar revistas e jornais dedicados à modalidade provocam prejuízos grandes, mas são essenciais para o crescimento do ténis no nosso país. Quem me dera que outros quisessem fazê-lo». Várias vezes ouvi declarações suas deste género e faziam, de facto, sentido.

Sem João Lagos não haveria, provavelmente, um ténis tão profissionalizado como temos hoje em dia em Portugal, quer ao nível dos jogadores, como dos treinadores, árbitros, jornalistas e promotores de eventos. Ele foi sempre o primeiro a inovar, a acreditar e a apostar, desbravando caminhos novos, mas é evidente que, ao fazê-lo, abriu novas oportunidades de negócio.

As críticas negativas que têm sido efectuadas à FPT por ter pegado no defunto Grande Prémio TMN e transformá-lo no Circuito FPT/CIMA parecem-me extremamente injustas.
A capacidade de, em poucos meses, reagrupar os clubes e promotores, arranjar um novo patrocinador para a modalidade e não deixar cair um projecto de tão elevada importância para o ténis português deveria ser elogiada. A única crítica que faço à FPT é a iniciativa pecar por tardia. De ter sido preciso aprender, uma vez mais, com a JLS como se deve fazer. Mas isso é algo que não pode ser assacado à actual Direcção.

Numa avaliação global, o Circuito FPT/CIMA é um factor de desenvolvimento do ténis nacional, independentemente dos ‘tennis elbow’ que possa estar a provocar.

Já numa avaliação na especificidade do seu regulamento, há determinados pormenores que me parecem deficientes, sem por isso colocarem em perigo a sua importância, mas como este artigo já vai longo, deixarei essas questões para outras calendas.

Entretanto, não se esqueçam de vir ao Luso Ténis durante o Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp, de 8 a 11 de Agosto, pois prometi escrever um Court & Costura diário, à semelhança da experiência positiva verificada no último Estoril Open.

 

 


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