Luso Ténis
 

 

Artigos Anteriores

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
7º Artigo
20 de Junho de 2006


COMPARAR RECORDES MUNDIAIS

Rafael Nadal fixou um novo recorde mundial de encontros ganhos consecutivamente em terra batida (60), enquanto Roger Federer igualou outro recorde mundial, o de encontros ganhos consecutivamente sobre relva (41). Um e outro têm valores completamente diferentes.

O de Nadal, que superou o anterior máximo de Guillermo Vilas, foi conseguido nos maiores torneios do circuito de pó-de-tijilo.

Vilas fê-lo com um título em Roland Garros e outro do Open da Alemanha em Hamburgo. Os restantes eram torneios de menor dimensão. Nadal ultrapassou-o, ao concretizar o seu novo registo com duas Taças dos Mosqueteiros e outros tantos troféus levantados nos Opens de Monte Carlo e de Itália (Roma). Só lhe faltou jogar (e vencer) em Hamburgo para se tornar no primeiro jogador a lograr o chamado 'Grand Slam' da terra batida.

Já a nova marca de Roger Federer na relva não passa de uma questão estatística. Bjorn Borg cometeu a proeza única na história da modalidade de ser o único profissional com cinco títulos consecutivos em Wimbledon, tendo ainda atingido uma sexta final seguida.

Foi na catedral do ténis que "Ice-Borg" somou os seus 41 encontros ganhos consecutivamente sobre relva. Federer leva "apenas" três triunfos seguidos (o equivalente a 21 encontros) no All England Club. Os outros 20 duelos foram coleccionados nos seus quatro títulos em Halle, um torneio que ainda assume foros de secundário se comparado com o do Queen's Club, entre os que servem de preparação para Wimbledon.

Os jornalistas podem, portanto enfatizar o que quiserem sobre os 41 'matches' ganhos pelo actual nº1 mundial em relva, mas o próprio helvético, numa entrevista concedida este ano ao jornal L'Équipe, revelou ser um profundo conhecedor da modalidade, ao dizer que o recorde que ele persegue é o tal de cinco sucessos seguidos em Wimbledon, que considera ainda mais importante do que os sete títulos alternados de Pete Sampras no principal torneio do Mundo.

Há uns anos, efectuou-se uma eleição junto dos próprios jogadores profissionais, sobre qual foi o principal feito tenístico na Era Open. Entre as várias hipóteses, figuravam grandes proezas como o 'Grand Slam' de Rod Laver em 1969, o 'Golden Slam' de Steffi Graf em 1988, os seis anos consecutivos de Pete Sampras como nº1 mundial, os nove títulos de singulares de Martina Navratilova em Wimbledon, os seis de Bjorn Borg em Roland Garros, etc., etc., mas aquele que foi considerado o maior de todos foram os tais cinco Wimbledons seguidos, entre 1976 e 1981.

Federer sabe do que fala e será interessante verificar se este ano será capaz de aproximar-se dessa marca e juntar um quarto título consecutivo de Wimbledon ao seu brilhante palmarés. Sampras ia bem lançado em 1996 (venceu em 1993, 1994 e 1995), mas foi travado naquele ano por Richard Krajicek nos quartos-de-final. Iniciou nova série em 1997, 1998, 1999 e 2000, mas o quinto título foi-lhe vedado por Federer nos oitavos-de-final. Irá Federer igualar o tetracampeonato de Sampras este ano?

Já o recorde mundial de seis títulos (em anos alternados: 1974 e 1975, 1978, 1979, 1980, 1981) de Bjorn Borg em Roland Garros está ainda mais longe de ser igualado. Como disse Sergi Bruguera recentemente, os dois títulos de Nadal já são muito bons (ele próprio fez o bicampeonato em 1993 e 1994), mais seis. "são outra fruta"!

Quando comparamos recordes mundiais, deveremos saber olhar sempre para além dos números. Por exemplo, Pete Sampras foi nº1 mundial em seis anos seguidos, reduzindo a pó os cinco anos de Jimmy Connors, mas mesmo quando Sampras completou o seu quinto ano à frente da lista, já tinha sido maior do que Connors.

O cálculo que a ATP fazia para definir no 'ranking' nos tempos de "Jimbo" resultava de uma média pontual, que perpetuava o imobilismo e quem estava no topo da classificação, à semelhança do que sucede, por exemplo, nos nossos dias, no 'ranking' mundial de golfe.

Já "Pistol Pete" foi nº1 mundial numa altura em que o então ATP Tour mudou de cálculo, sendo o 'ranking' o resultado dos 18 melhores resultados por época. Este sistema promove mexidas na tabela, de modo a provocar mais alternâncias, rivalidades e torná-la mais atraente ao público.

Manter-se no topo foi muito mais difícil para Sampras do que para Connors. Durante o seu reinado de nº1, de 1974 a 1978, inclusive, o texano ganhou cinco torneios do 'Grand Slam'. Nos anos do seu domínio como nº1, entre 1993 e 1998, o californiano impôs-se em 10 'majors', exactamente o dobro!

Moralidade da história, adulterando a famosa "tirada" do "Animal Farm" de George Orwell: os recordes mundiais de ténis não são todos iguais, mas mesmo quando parecem sê-lo, há sempre uns mais iguais do que outros.

 
 
 

 


View My Stats