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Queres ser Nikolay
Davydenko?
Nikolay
Davydenko adora conferências de Imprensa.
Não admira, pois, como disse um dia Boris
Becker, todos os campeões de ténis são egos
monstruosos. Se não gostassem da fama e de
atenção, teriam optado por modalidades bem
menos mediáticas como, por exemplo, o 'curling'.
Quando
rebentou o escândalo das apostas no ténis,
em meados do ano passado, Davydenko foi o
grande protagonista e, curiosamente, a sua
primeira reacção foi positiva.
«Talvez agora
fique um pouco mais famoso», disse ele na
primeira conferência de Imprensa que deu,
após ter vindo a público a questão que tanto
debilitou o circuito ATP em 2007.
Não é habitual
que um tenista que ande sistematicamente
pelo 'top-5' mundial sinta falta de
exposição pública. Frequentemente até se
queixam de tê-la em demasia, mas Davydenko é
tudo menos uma “estrela”. Em 2006 era nº3
mundial e só tinha contrato de raquetas.
Jogava com roupas sem logo e chegou a calçar
sapatos de ténis oferecidos pelo compatriota
Dmitry Tursunov. Em 2008 já é equipado na
íntegra com patrocínios, mas com valores
muito abaixo de um jogador da sua categoria.
Num artigo que
escrevi esta semana para o Diário de
Notícias, chamei-lhe mesmo o anti-herói do
ténis.
Só mais tarde
e aos poucos o russo natural da Ucrânia e
antigo residente na Alemanha se foi
queixando de que o problema das apostas
viciadas – do qual ainda não o provaram
culpado e do qual Roger Federer já o ilibou
– começava a afectá-lo, pois não se falava
de outra coisa em cada torneio que jogava...
e se o russo gosta de jogar semana atrás de
semana!
Estranhamente,
no Estoril Open, ainda nenhum jornalista o
interpelou sobre o processo das apostas
viciadas que a ATP espera concluir
brevemente. Mas temos conversado com ele
sobre variadíssimos assuntos – sim, porque
Nikolay está tão à vontade connosco no seu
arranhado e rudimentar inglês que aquelas
conferências de Imprensa não são
entrevistas, são conversas.
Nota-se que o
líder da selecção russa que venceu a Taça
Davis em 2006 está a adorar o “bate-papo”
com a Imprensa portuguesa. Aliás, sublinhou:
«a época de terra batida não seria a mesma
na minha cabeça se não começasse todos os
anos no Estoril Open e tenho sempre vontade
de regressar, tanto nos anos em que chego à
final como nos que perco na primeira ronda».
Aqui há uns
dias perguntaram-lhe se não era estranho
para ele ter tanto apoio no Jamor, quando
noutros torneios passa despercebido e às
vezes até prefere jogar em 'courts'
secundários nas primeiras rondas. «É normal
que seja mais conhecido num torneio que já
ganhei e onde venho todos os anos. É claro
que podemos ir dez anos seguidos ao mesmo
torneio e não ficarmos conhecidos (façamos
um parêntesis; esta tirada teve graça e
fez-me lembrar as sistemáticas derrotas do
Yevgeny Kafelnikov nas primeiras rondas do
Estoril Open), mas eu já ganhei uma vez e já
fui à final noutra ocasião», respondeu o
campeão de 2003 do mais importante torneio
de ténis português.
Este ano,
Davydenko está radiante que Roger Federer
ande a centrar as atenções. «Gosto de não
ser o favorito e de ir-me escapulindo ronda
a ronda», confidenciou o recente vencedor do
Masters Series de Miami, acrescentando que,
se chegar à final, gostaria de defrontar o
nº1 mundial.
Se essa final
vier a acontecer, Federer será o grande
favorito do público, mas Davydenko terá
seguramente os seus apoiantes e alguns deles
serão jornalistas. O russo é mesmo impagável
e hoje até nos levou a uma viagem pelos seus
neurónios, como naquele filme «Being John
Malkovich» («Queres Ser John Malkovich»),
admitindo que há momentos de loucura na sua
cabeça e rindo-se quando, numa resposta à
jornalista Célia Lourenço de A Bola,
assegurou: «posso ter vontade de partir
raquetas no 'court', mas nunca o faria na
minha própria cabeça como o Mikhail Youzhny,
até porque aqui no Estoril Open só tenho
quatro raquetas e não posso desperdiçá-las».
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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