Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
30º Artigo - Especial Estoril Open 2008
18 de Abril de 2008


Queres ser Nikolay Davydenko?

Nikolay Davydenko adora conferências de Imprensa. Não admira, pois, como disse um dia Boris Becker, todos os campeões de ténis são egos monstruosos. Se não gostassem da fama e de atenção, teriam optado por modalidades bem menos mediáticas como, por exemplo, o 'curling'.

Quando rebentou o escândalo das apostas no ténis, em meados do ano passado, Davydenko foi o grande protagonista e, curiosamente, a sua primeira reacção foi positiva.

«Talvez agora fique um pouco mais famoso», disse ele na primeira conferência de Imprensa que deu, após ter vindo a público a questão que tanto debilitou o circuito ATP em 2007.

Não é habitual que um tenista que ande sistematicamente pelo 'top-5' mundial sinta falta de exposição pública. Frequentemente até se queixam de tê-la em demasia, mas Davydenko é tudo menos uma “estrela”. Em 2006 era nº3 mundial e só tinha contrato de raquetas. Jogava com roupas sem logo e chegou a calçar sapatos de ténis oferecidos pelo compatriota Dmitry Tursunov. Em 2008 já é equipado na íntegra com patrocínios, mas com valores muito abaixo de um jogador da sua categoria.

Num artigo que escrevi esta semana para o Diário de Notícias, chamei-lhe mesmo o anti-herói do ténis.

Só mais tarde e aos poucos o russo natural da Ucrânia e antigo residente na Alemanha se foi queixando de que o problema das apostas viciadas – do qual ainda não o provaram culpado e do qual Roger Federer já o ilibou – começava a afectá-lo, pois não se falava de outra coisa em cada torneio que jogava... e se o russo gosta de jogar semana atrás de semana!

Estranhamente, no Estoril Open, ainda nenhum jornalista o interpelou sobre o processo das apostas viciadas que a ATP espera concluir brevemente. Mas temos conversado com ele sobre variadíssimos assuntos – sim, porque Nikolay está tão à vontade connosco no seu arranhado e rudimentar inglês que aquelas conferências de Imprensa não são entrevistas, são conversas.

Nota-se que o líder da selecção russa que venceu a Taça Davis em 2006 está a adorar o “bate-papo” com a Imprensa portuguesa. Aliás, sublinhou: «a época de terra batida não seria a mesma na minha cabeça se não começasse todos os anos no Estoril Open e tenho sempre vontade de regressar, tanto nos anos em que chego à final como nos que perco na primeira ronda».

Aqui há uns dias perguntaram-lhe se não era estranho para ele ter tanto apoio no Jamor, quando noutros torneios passa despercebido e às vezes até prefere jogar em 'courts' secundários nas primeiras rondas. «É normal que seja mais conhecido num torneio que já ganhei e onde venho todos os anos. É claro que podemos ir dez anos seguidos ao mesmo torneio e não ficarmos conhecidos (façamos um parêntesis; esta tirada teve graça e fez-me lembrar as sistemáticas derrotas do Yevgeny Kafelnikov nas primeiras rondas do Estoril Open), mas eu já ganhei uma vez e já fui à final noutra ocasião», respondeu o campeão de 2003 do mais importante torneio de ténis português.

Este ano, Davydenko está radiante que Roger Federer ande a centrar as atenções. «Gosto de não ser o favorito e de ir-me escapulindo ronda a ronda», confidenciou o recente vencedor do Masters Series de Miami, acrescentando que, se chegar à final, gostaria de defrontar o nº1 mundial.

Se essa final vier a acontecer, Federer será o grande favorito do público, mas Davydenko terá seguramente os seus apoiantes e alguns deles serão jornalistas. O russo é mesmo impagável e hoje até nos levou a uma viagem pelos seus neurónios, como naquele filme «Being John Malkovich» («Queres Ser John Malkovich»), admitindo que há momentos de loucura na sua cabeça e rindo-se quando, numa resposta à jornalista Célia Lourenço de A Bola, assegurou: «posso ter vontade de partir raquetas no 'court', mas nunca o faria na minha própria cabeça como o Mikhail Youzhny, até porque aqui no Estoril Open só tenho quatro raquetas e não posso desperdiçá-las».

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


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