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O NOVO TÉNIS
PORTUGUÊS
As
conferências de Imprensa de Nuno Marques
(após ter passado a primeira ronda de pares
ao lado de Leonardo Tavares) e de João Cunha
e Silva (depois do seu “pupilo” Frederico
Gil se ter apurado para os quartos-de-final
de singulares) foram autênticas lições sobre
variados temas.
A experiência
acumulada ao longo dos anos pelos dois
melhores jogadores portugueses de todos os
tempos é um activo que o ténis português não
pode nem deve perder e é uma pena que a
situação financeira da Federação Portuguesa
de Ténis seja tão débil e que sejamos
forçados a vê-los optar por projectos
privados, quando deveriam ser integrados num
mega-projecto federativo.
De todas as
formas, foi com patriótico prazer que ouvi
Cunha e Silva assegurar que o seu trabalho à
frente da escolas do Centro Escola de Ténis
de Oeiras «está a ser revolucionário» e que
escutei Marques sublinhar que já faz sentido
pensar duas vezes antes de enviar um jovem
português treinar no estrangeiro, sobretudo
em Espanha, pois são mais os falhanços do
que os sucessos – e tem razão em dizer que
Rui Machado foi o primeiro, e até agora
único, exemplo de inequívoco êxito –
enquanto em Portugal começam agora a
reunir-se algumas condições inéditas.
Nuno recordou
que quando ele e o João viajaram para os
torneios do Grand Slam, não foram só eles a
ficarem a mirar para os quatro colossos do
ténis mundial como um boi olha para um
palácio. Os seus treinadores também. Era
tudo novo para eles e tanto os dois
jogadores como as suas equipas técnicas
andaram «a desbravar caminho».
Actualmente, Nuno já selecciona um punhado
«de bons treinadores com experiência em
Portugal», tendo destacado «todo o processo
que o Luís Miguel Nascimento tem liderado
com o Gastão Elias» e «o trabalho e os
resultados práticos de qualidade do João
Cunha e Silva». Nuno acrescentou que espera
ver um dia alguém quebrar o seu recorde de
ser o único português a ter integrado o
‘top-100’ mundial, «gostaria que fosse o Leo
(Tavares) a fazê-lo» com ele próprio – Nuno
– a seu lado, no papel de treinador.
João Cunha e
Silva confessou que, quando terminou a sua
carreira de jogador, teve alguns convites
para iniciar no estrangeiro a sua carreira
de treinador, mas recusou-os e,
provavelmente, voltaria a recusá-los, pois
decidiu «fazer uma aposta em Portugal».
O ténis português agradece essa aposta e já
temos um grupo razoável de jogadores e
jogadoras com resultados internacionais que
há 20 anos eram simplesmente impensáveis.
É lamentável
que os media nacionais se tenham
desinteressado do ténis português com o
passar dos anos. Os tenistas lusos só
recebem grande cobertura mediática nas
semanas do Estoril Open e do Vale do Lobo
Grand Champions Millennium bcp. O resto do
ano é confrangedor.
Há 20 e há 10
anos, quando Marques, Cunha e Silva,
Bernardo Mota, Emanuel Couto e Sofia
Prazeres faziam resultados semelhantes aos
que hoje em dia são assinados por Frederica
Piedade, Magali De Lattre, Ana Nogueira,
Neuza Silva, Frederico Gil, Rui Machado e
Leonardo Tavares, tinham direito a páginas
inteiras de jornais, entrevistas nas rádios
e televisão. Os seus sucessores limitam-se a
beneficiar de pequenos textos, breves e, ás
vezes, nem isso, mesmo quando ganham
torneios internacionais.
É neste contexto que a qualificação de
Frederico Gil para os quartos-de-final do
Estoril Open é tão importante. Cunha e Silva
disse hoje, com razão, que quando, em 1992,
se tornou no primeiro português a atingir
esta fase do principal torneio português, o
impacto foi maior, por ser inédito, mas o
feito de Gil tem o condão de chamar a
atenção dos media nacionais para dois
aspectos relevantes: em primeiro lugar, a
subida do nível médio dos novos treinadores
portugueses e, em segundo, o surgimento de
uma nova geração de tenistas capaz de novos
recordes para o ténis português.
Não nos
esqueçamos que esta presença de Frederico
Gil nos quartos-de-final do Estoril Open,
igualando os feitos de João Cunha e Silva em
1992 e de Nuno Marques em 1994, acontece um
ano depois do mesmo Gil ter ajudado Portugal
a, pela primeira vez na nossa história,
virar uma eliminatória da Taça Davis de 0-2
para 3-2. Não lhe peçam agora que derrote
amanhã David Nalbandian. O argentino é de
outra estirpe e o recorde de Cunha e Silva,
de ter sido o único português a atingir as
meias-finais de um torneio do ATP Tour
(Telavive/1992), deverá ainda permanecer
inigualado por mais algum tempo.
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