Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
3º Artigo - Especial Estoril Open 2006
Quinta-Feira, 4 de Maio de 2006


O NOVO TÉNIS PORTUGUÊS

As conferências de Imprensa de Nuno Marques (após ter passado a primeira ronda de pares ao lado de Leonardo Tavares) e de João Cunha e Silva (depois do seu “pupilo” Frederico Gil se ter apurado para os quartos-de-final de singulares) foram autênticas lições sobre variados temas.

A experiência acumulada ao longo dos anos pelos dois melhores jogadores portugueses de todos os tempos é um activo que o ténis português não pode nem deve perder e é uma pena que a situação financeira da Federação Portuguesa de Ténis seja tão débil e que sejamos forçados a vê-los optar por projectos privados, quando deveriam ser integrados num mega-projecto federativo.

De todas as formas, foi com patriótico prazer que ouvi Cunha e Silva assegurar que o seu trabalho à frente da escolas do Centro Escola de Ténis de Oeiras «está a ser revolucionário» e que escutei Marques sublinhar que já faz sentido pensar duas vezes antes de enviar um jovem português treinar no estrangeiro, sobretudo em Espanha, pois são mais os falhanços do que os sucessos – e tem razão em dizer que Rui Machado foi o primeiro, e até agora único, exemplo de inequívoco êxito – enquanto em Portugal começam agora a reunir-se algumas condições inéditas.

Nuno recordou que quando ele e o João viajaram para os torneios do Grand Slam, não foram só eles a ficarem a mirar para os quatro colossos do ténis mundial como um boi olha para um palácio. Os seus treinadores também. Era tudo novo para eles e tanto os dois jogadores como as suas equipas técnicas andaram «a desbravar caminho».

Actualmente, Nuno já selecciona um punhado «de bons treinadores com experiência em Portugal», tendo destacado «todo o processo que o Luís Miguel Nascimento tem liderado com o Gastão Elias» e «o trabalho e os resultados práticos de qualidade do João Cunha e Silva». Nuno acrescentou que espera ver um dia alguém quebrar o seu recorde de ser o único português a ter integrado o ‘top-100’ mundial, «gostaria que fosse o Leo (Tavares) a fazê-lo» com ele próprio – Nuno – a seu lado, no papel de treinador.

João Cunha e Silva confessou que, quando terminou a sua carreira de jogador, teve alguns convites para iniciar no estrangeiro a sua carreira de treinador, mas recusou-os e, provavelmente, voltaria a recusá-los, pois decidiu «fazer uma aposta em Portugal».
O ténis português agradece essa aposta e já temos um grupo razoável de jogadores e jogadoras com resultados internacionais que há 20 anos eram simplesmente impensáveis.

É lamentável que os media nacionais se tenham desinteressado do ténis português com o passar dos anos. Os tenistas lusos só recebem grande cobertura mediática nas semanas do Estoril Open e do Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp. O resto do ano é confrangedor.

Há 20 e há 10 anos, quando Marques, Cunha e Silva, Bernardo Mota, Emanuel Couto e Sofia Prazeres faziam resultados semelhantes aos que hoje em dia são assinados por Frederica Piedade, Magali De Lattre, Ana Nogueira, Neuza Silva, Frederico Gil, Rui Machado e Leonardo Tavares, tinham direito a páginas inteiras de jornais, entrevistas nas rádios e televisão. Os seus sucessores limitam-se a beneficiar de pequenos textos, breves e, ás vezes, nem isso, mesmo quando ganham torneios internacionais.
É neste contexto que a qualificação de Frederico Gil para os quartos-de-final do Estoril Open é tão importante. Cunha e Silva disse hoje, com razão, que quando, em 1992, se tornou no primeiro português a atingir esta fase do principal torneio português, o impacto foi maior, por ser inédito, mas o feito de Gil tem o condão de chamar a atenção dos media nacionais para dois aspectos relevantes: em primeiro lugar, a subida do nível médio dos novos treinadores portugueses e, em segundo, o surgimento de uma nova geração de tenistas capaz de novos recordes para o ténis português.

Não nos esqueçamos que esta presença de Frederico Gil nos quartos-de-final do Estoril Open, igualando os feitos de João Cunha e Silva em 1992 e de Nuno Marques em 1994, acontece um ano depois do mesmo Gil ter ajudado Portugal a, pela primeira vez na nossa história, virar uma eliminatória da Taça Davis de 0-2 para 3-2. Não lhe peçam agora que derrote amanhã David Nalbandian. O argentino é de outra estirpe e o recorde de Cunha e Silva, de ter sido o único português a atingir as meias-finais de um torneio do ATP Tour (Telavive/1992), deverá ainda permanecer inigualado por mais algum tempo.

 

 

 


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