Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
27º Artigo - Especial Estoril Open 2008
15 de Abril de 2008


Michelle convertida à Fed Cup

Sofia Prazeres veio hoje de manhã à sala de Imprensa. Ia com a amiga Tânia Couto ao 'Court' Central ver jogar pela primeira vez Michelle Brito.

Foi uma festa rever aquela que, durante muitos anos, foi a melhor tenista portuguesa de todos os tempos e aproveitei para renovar-lhe o convite efectuado pelo coordenador do Eurosport Portugal, Luís Piçarra, para se estrear em comentários de ténis.

Aposto (esta palavra no ténis está agora quase proibida, ainda mais em torneios em que jogue o Davydenko) que a Sofia daria uma excelente comentadora de ténis feminino. Lembro-me de assistir a alguns encontros ao lado dela e digo-vos que surpreendeu-me com os seus comentários sagazes.

Palavra puxa palavra e conversámos sobre os tempos em que ambas eram as figuras de proa da nossa selecção nacional da Fed Cup, juntamente com a Joana Pedroso e, às vezes, com a Inês Drumond.

Concordámos que o António Cabral – que na semana passada me impressionou pela pertinência dos seus comentários televisivos na final do torneio de Amelia Island – foi um muito bom seleccionador nacional feminino.

Claro que a Tânia e a Sofia lembram-se dos bons momentos e como são muito amigas esqueceram-se dos tempos em que, rivais, não era assim tão fácil criar um espírito de equipa entre ambas. Mas eu tenho bem presente como o papel do Tó Cabral foi importante na aproximação de ambas, dentro e fora do 'court'.

Passados quase 20 anos, Pedro Cordeiro, que em Janeiro recuperou o cargo de seleccionador nacional feminino, depara-se com o mesmo problema e, na minha óptica, é esse o principal trabalho que tem pela frente nos próximos meses, no respeitante à equipa da Fed Cup.

Como em Portugal a memória é curta, tornou-se hoje em dia politicamente correcto “malhar forte e feio” no Paulo Lucas, o antigo capitão da Fed Cup e da Taça da Europa feminina.

Em vários momentos, designadamente na coluna semanal que assino no Diário de Notícias, defendi o contrário. Considero que o Paulo Lucas nunca deveria ter procurado ser seleccionador feminino porque, na minha opinião, é incompatível com o posto de Director-técnico nacional, mas, salvaguardando esta questão, fez um bom trabalho no seu primeiro ano de mandato.

Lucas trouxe de volta Frederica Piedade à selecção e acarinhou-a numa altura em que o país tinha a noção de que a melhor tenista portuguesa de sempre não queria jogar por Portugal devido a problemas (leia-se dívidas) com a Federação Portuguesa de Ténis.

O mesmo Lucas teve as “costas largas” quando não ouviu aqueles que criticavam a presença de Ana Nogueira na selecção, pelo errado argumento de que já não teria idade para tal, devendo-se dar o lugar às mais novas, e aproveitou da melhor maneira a enorme experiência e força de vontade que “Nogui” sempre mostrou ao serviço da selecção.

E mesmo para aqueles que o acusavam de só pensar nas suas jogadoras, Lucas foi capaz de deixar “no banco” a sua mais antiga atleta, Magali De Lattre. Já nem falo da recuperação de Neuza Silva, quando parecia perdida para o ténis, porque esse foi um trabalho efectuado a nível privado e não no seio da selecção, mas do qual Portugal beneficou largamente.

Os bons resultados na Fed Cup e na Taça da Europa foram uma consequência desse trabalho de bastidores.

Mas o segundo ano de mandato de Lucas como seleccionador foi um descalabro, não tanto em termos de resultados, mas pelo simples facto de não ter conseguido criar um espírito de grupo. E quando saiu, em Dezembro, tinha Magali e Frederica de costas totalmente viradas para si e Ana a desejar a sua partida. Só a sua jogadora, Neuza, o defendia incondicionalmente.

Pedro Cordeiro pegou, por isso, numa selecção emocionalmente esfrangalhada e teve muito pouco tempo – apenas um mês – para mostrar trabalho. É claro que o resultado não poderia ter sido positivo e não estou a falar de questões desportivas.

O desentendimento que se tornou público entre o seleccionador e a nº1 nacional, Neuza Silva, tem contornos que um dia poderei explicar aqui, no Luso Ténis, mas, para este caso, só me interessa frisar que o capitão tem agora um ano para refazer o espírito de grupo.

De Ana Nogueira não tem nada a temer. Sempre foram amigos, Ana foi sua jogadora durante muitos anos, ainda hoje tem nele um bom conselheiro e Pedro sabe melhor do que ninguém que o bilhete de indentidade pouco importa quando a motivação é grande e o rendimento desportivo continua elevado. Ana sempre foi exemplar e ao serviço da selecção ainda mais.

Neuza Silva e Magali De Lattre serão os problemas mais “bicudos” de resolver, mas ainda acho que vale a pena Pedro Cordeiro perder algum tempo em perceber as duas jogadoras e tentar chegar a algum entendimento com elas. Para mais, Pedro e Neuza, em momentos diferentes, já me sublinharam terem o mesmo objectivo para a selecção: «garantir a presença das melhores na equipa».

Estou convencido que a selecção teria muito a ganhar com uma reconciliação. Recordo como em 1984 José Vilela e João Cunha e Silva também tiveram uma feia divergência pública mas, uma vez resolvido o diferendo, Cunha e Silva tornou-se num dos baluartes das equipas de Vilela.

Cada caso é um caso e no ténis feminino ainda mais. Uma das lições que aprendi há muitos anos com o Tó Cabral foi que o relacionamento entre um capitão e uma jogadora tem de ser muito mais personalizado e diferenciado do que entre um capitão e um jogador. As mulheres gostam mesmo de se sentir únicas.

A aproximação a Frederica creio estar a ser bem resolvida. Ainda hoje falei com Pedro Cordeiro e ele disse-me que conversou com Miguel Horta, o pai e treinador da jogadora: «Expliquei ao Miguel que quero as melhores na equipa e que, por isso, conto com a Frederica. Os problemas com a FPT são para ser resolvidos entre as duas partes. Eu só quero convocar as melhores».

Mas o grande sucesso de Pedro Cordeiro está o modo inteligente como tem ganho a confiança de Michelle Brito, da sua família e da sua equipa. Ter convencido a FPT a desembolsar a verba necessária para ir à Florida conhecer Michelle, a família, o empresário e os treinadores foi uma jogada de mestre. Ainda por cima, ficou alojado em casa de Many Dominguez, o antigo treinador de Nuno Marques, residente em Miami, poupando a FPT às elevadas despesas de alojamento na Florida.

O gesto da FPT em enviar o seu capitão deu a entender ao clã Brito como Portugal aprecia o facto da jovem insistir em ser chamada de portuguesa, quando reside nos Estados Unidos e se exprime muito melhor em inglês.

Ouvindo Michelle falar hoje, na conferência de Imprensa, sobre Pedro Cordeiro, percebi de imediato que a relação entre ambos começa a ser especial. «Gostei muito que o Pedro Cordeiro tivesse ido a Miami e também foi bom ter treinado com a equipa da Taça Davis no estágio da semana passada», disse a “menina-prodígio” do ténis português.

O estágio da Taça Davis, eis outra jogada magistral de Pedro Cordeiro. E quem o conhece, sabe bem que essa ajuda veio do fundo do coração. O próprio pai e treinador de Michelle, António, já pediu algumas “dicas” ao seleccionador sobre o serviço, um dos capítulos em que a sua filha mais terá de trabalhar para se tornar na campeã que todos desejamos.

O certo é que, embora todos tenhamos a noção de que a presença de Michelle Brito na selecção nacional da Fed Cup – sobretudo enquanto for demasiado jovem e não tiver ainda voz na matéria – irá depender muito mais das imprescindíveis negociações entre a IMG que a representa e a FPT, foi encorajador ouvir a jogadora dizer que «gostaria muito de jogar a Fed Cup por Portugal», se possível, já no próximo ano.

Um passo importante foi também dado neste Estoril Open com a experiência positiva do par Neuza Silva/Michelle Brito. Perderam na primeira ronda, mas só no 'match-tie-break'.

Com Michelle Brito na equipa, Frederica Piedade recuperada, Neuza Silva e Magali De Lattre reconciliadas com a equipa e a chama eterna de Ana Nogueira, Portugal poderá sonhar com a melhor selecção nacional de sempre na Fed Cup. Pedro Cordeiro parece estar a trabalhar bem nesse sentido, mas é preciso que o faça junto de todas as jogadoras.

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


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