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Michelle convertida à Fed Cup
Sofia Prazeres
veio hoje de manhã à sala de Imprensa. Ia
com a amiga Tânia Couto ao 'Court' Central
ver jogar pela primeira vez Michelle Brito.
Foi uma festa
rever aquela que, durante muitos anos, foi a
melhor tenista portuguesa de todos os tempos
e aproveitei para renovar-lhe o convite
efectuado pelo coordenador do Eurosport
Portugal, Luís Piçarra, para se estrear em
comentários de ténis.
Aposto (esta
palavra no ténis está agora quase proibida,
ainda mais em torneios em que jogue o
Davydenko) que a Sofia daria uma excelente
comentadora de ténis feminino. Lembro-me de
assistir a alguns encontros ao lado dela e
digo-vos que surpreendeu-me com os seus
comentários sagazes.
Palavra puxa
palavra e conversámos sobre os tempos em que
ambas eram as figuras de proa da nossa
selecção nacional da Fed Cup, juntamente com
a Joana Pedroso e, às vezes, com a Inês
Drumond.
Concordámos
que o António Cabral – que na semana passada
me impressionou pela pertinência dos seus
comentários televisivos na final do torneio
de Amelia Island – foi um muito bom
seleccionador nacional feminino.
Claro que a
Tânia e a Sofia lembram-se dos bons momentos
e como são muito amigas esqueceram-se dos
tempos em que, rivais, não era assim tão
fácil criar um espírito de equipa entre
ambas. Mas eu tenho bem presente como o
papel do Tó Cabral foi importante na
aproximação de ambas, dentro e fora do 'court'.
Passados quase
20 anos, Pedro Cordeiro, que em Janeiro
recuperou o cargo de seleccionador nacional
feminino, depara-se com o mesmo problema e,
na minha óptica, é esse o principal trabalho
que tem pela frente nos próximos meses, no
respeitante à equipa da Fed Cup.
Como em
Portugal a memória é curta, tornou-se hoje
em dia politicamente correcto “malhar forte
e feio” no Paulo Lucas, o antigo capitão da
Fed Cup e da Taça da Europa feminina.
Em vários
momentos, designadamente na coluna semanal
que assino no Diário de Notícias, defendi o
contrário. Considero que o Paulo Lucas nunca
deveria ter procurado ser seleccionador
feminino porque, na minha opinião, é
incompatível com o posto de Director-técnico
nacional, mas, salvaguardando esta questão,
fez um bom trabalho no seu primeiro ano de
mandato.
Lucas trouxe
de volta Frederica Piedade à selecção e
acarinhou-a numa altura em que o país tinha
a noção de que a melhor tenista portuguesa
de sempre não queria jogar por Portugal
devido a problemas (leia-se dívidas) com a
Federação Portuguesa de Ténis.
O mesmo Lucas
teve as “costas largas” quando não ouviu
aqueles que criticavam a presença de Ana
Nogueira na selecção, pelo errado argumento
de que já não teria idade para tal,
devendo-se dar o lugar às mais novas, e
aproveitou da melhor maneira a enorme
experiência e força de vontade que “Nogui”
sempre mostrou ao serviço da selecção.
E mesmo para
aqueles que o acusavam de só pensar nas suas
jogadoras, Lucas foi capaz de deixar “no
banco” a sua mais antiga atleta, Magali De
Lattre. Já nem falo da recuperação de Neuza
Silva, quando parecia perdida para o ténis,
porque esse foi um trabalho efectuado a
nível privado e não no seio da selecção, mas
do qual Portugal beneficou largamente.
Os bons
resultados na Fed Cup e na Taça da Europa
foram uma consequência desse trabalho de
bastidores.
Mas o segundo
ano de mandato de Lucas como seleccionador
foi um descalabro, não tanto em termos de
resultados, mas pelo simples facto de não
ter conseguido criar um espírito de grupo. E
quando saiu, em Dezembro, tinha Magali e
Frederica de costas totalmente viradas para
si e Ana a desejar a sua partida. Só a sua
jogadora, Neuza, o defendia
incondicionalmente.
Pedro Cordeiro
pegou, por isso, numa selecção
emocionalmente esfrangalhada e teve muito
pouco tempo – apenas um mês – para mostrar
trabalho. É claro que o resultado não
poderia ter sido positivo e não estou a
falar de questões desportivas.
O
desentendimento que se tornou público entre
o seleccionador e a nº1 nacional, Neuza
Silva, tem contornos que um dia poderei
explicar aqui, no Luso Ténis, mas, para este
caso, só me interessa frisar que o capitão
tem agora um ano para refazer o espírito de
grupo.
De Ana
Nogueira não tem nada a temer. Sempre foram
amigos, Ana foi sua jogadora durante muitos
anos, ainda hoje tem nele um bom conselheiro
e Pedro sabe melhor do que ninguém que o
bilhete de indentidade pouco importa quando
a motivação é grande e o rendimento
desportivo continua elevado. Ana sempre foi
exemplar e ao serviço da selecção ainda
mais.
Neuza Silva e
Magali De Lattre serão os problemas mais
“bicudos” de resolver, mas ainda acho que
vale a pena Pedro Cordeiro perder algum
tempo em perceber as duas jogadoras e tentar
chegar a algum entendimento com elas. Para
mais, Pedro e Neuza, em momentos diferentes,
já me sublinharam terem o mesmo objectivo
para a selecção: «garantir a presença das
melhores na equipa».
Estou
convencido que a selecção teria muito a
ganhar com uma reconciliação. Recordo como
em 1984 José Vilela e João Cunha e Silva
também tiveram uma feia divergência pública
mas, uma vez resolvido o diferendo, Cunha e
Silva tornou-se num dos baluartes das
equipas de Vilela.
Cada caso é um
caso e no ténis feminino ainda mais. Uma das
lições que aprendi há muitos anos com o Tó
Cabral foi que o relacionamento entre um
capitão e uma jogadora tem de ser muito mais
personalizado e diferenciado do que entre um
capitão e um jogador. As mulheres gostam
mesmo de se sentir únicas.
A aproximação
a Frederica creio estar a ser bem resolvida.
Ainda hoje falei com Pedro Cordeiro e ele
disse-me que conversou com Miguel Horta, o
pai e treinador da jogadora: «Expliquei ao
Miguel que quero as melhores na equipa e
que, por isso, conto com a Frederica. Os
problemas com a FPT são para ser resolvidos
entre as duas partes. Eu só quero convocar
as melhores».
Mas o grande
sucesso de Pedro Cordeiro está o modo
inteligente como tem ganho a confiança de
Michelle Brito, da sua família e da sua
equipa. Ter convencido a FPT a desembolsar a
verba necessária para ir à Florida conhecer
Michelle, a família, o empresário e os
treinadores foi uma jogada de mestre. Ainda
por cima, ficou alojado em casa de Many
Dominguez, o antigo treinador de Nuno
Marques, residente em Miami, poupando a FPT
às elevadas despesas de alojamento na
Florida.
O gesto da FPT
em enviar o seu capitão deu a entender ao
clã Brito como Portugal aprecia o facto da
jovem insistir em ser chamada de portuguesa,
quando reside nos Estados Unidos e se
exprime muito melhor em inglês.
Ouvindo
Michelle falar hoje, na conferência de
Imprensa, sobre Pedro Cordeiro, percebi de
imediato que a relação entre ambos começa a
ser especial. «Gostei muito que o Pedro
Cordeiro tivesse ido a Miami e também foi
bom ter treinado com a equipa da Taça Davis
no estágio da semana passada», disse a
“menina-prodígio” do ténis português.
O estágio da
Taça Davis, eis outra jogada magistral de
Pedro Cordeiro. E quem o conhece, sabe bem
que essa ajuda veio do fundo do coração. O
próprio pai e treinador de Michelle,
António, já pediu algumas “dicas” ao
seleccionador sobre o serviço, um dos
capítulos em que a sua filha mais terá de
trabalhar para se tornar na campeã que todos
desejamos.
O certo é que,
embora todos tenhamos a noção de que a
presença de Michelle Brito na selecção
nacional da Fed Cup – sobretudo enquanto for
demasiado jovem e não tiver ainda voz na
matéria – irá depender muito mais das
imprescindíveis negociações entre a IMG que
a representa e a FPT, foi encorajador ouvir
a jogadora dizer que «gostaria muito de
jogar a Fed Cup por Portugal», se possível,
já no próximo ano.
Um passo
importante foi também dado neste Estoril
Open com a experiência positiva do par Neuza
Silva/Michelle Brito. Perderam na primeira
ronda, mas só no 'match-tie-break'.
Com Michelle
Brito na equipa, Frederica Piedade
recuperada, Neuza Silva e Magali De Lattre
reconciliadas com a equipa e a chama eterna
de Ana Nogueira, Portugal poderá sonhar com
a melhor selecção nacional de sempre na Fed
Cup. Pedro Cordeiro parece estar a trabalhar
bem nesse sentido, mas é preciso que o faça
junto de todas as jogadoras.
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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