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Não Lhes Cortem As Pernas
O belíssimo
pavilhão da Quinta dos Lombos esteve
decorado ao longo da semana com estandartes
dedicados aos “16 magníficos” que tiveram a
honra de disputar o 12º Masters português,
agora organizado pela Federação Portuguesa
de Ténis e patrocinado pela CIMA.
Olhando para aquela galeria de fotos de
campeões de consumo interno foi impossível
não pensar que, pelas mais diversas razões,
seis deles treinam actualmente com João
Cunha e Silva e outros dois são orientados
por Nuno Marques (que teve metade dos
finalistas).
Os dois maiores vultos da história do ténis
masculino português, cujos feitos só tiveram
equivalência feminina em Frederica Piedade,
estiveram ao longo da semana nas bancadas a
apoiar os seus “pupilos”, vestindo
seriamente os trajes de competentes
treinadores.
Não vamos aqui escamotear que nem todos
esses oito jogadores, num total de 16, foram
“fabricados” por Marques ou Cunha e Silva,
mas esse facto é pouco relevante para este
caso. Portugal é um dos países em que há
complexos em relação a estas situações,
verificando-se uma certa dificuldade dos
treinadores de formação em perceber quando
devem libertar os seus pequenos génios.
Em todo o Mundo desenvolvido do ténis há
treinadores que se especializaram em
“produzir” jovens promessas mas têm a
perfeita noção de que a partir de
determinada altura, sobretudo na fase de
pré-competição, é preciso deixá-los voar
para outras estruturas de apoio mais
profissionalizadas.
O que sobressaiu neste Masters FPT/CIMA foi
uma nova percepção por parte dos próprios
jogadores de alta competição que terão de
ser eles a lutar pelos seus interesses e
procurar os treinadores que melhores
garantias de futuro lhes possam dar,
independentemente das críticas que possam
ouvir.
O último exemplo foi o de Rui Machado, que
integrou o grupo de trabalho de João Cunha e
Silva no Clube Escola de Ténis de Oeiras
depois da falência do Team Lagos. E, já
agora, aproveito para dizer que, apesar das
muitas reticências que levantou no meio,
deveríamos todos lamentar o definhamento do
Team Lagos, cujo conceito era revolucionário
em alguns aspectos, mas que depois sentiu
sérias dificuldades de concretização
prática.
O certo é que, actualmente, e enquanto não
se sabe ao certo o que será o Centro de Alto
Rendimento do Estádio Nacional que o
Instituto do Desporto de Portugal está a
desafiar a Federação Portuguesa de Ténis a
lançar já em Janeiro, os nossos mais
proeminentes jogadores começam a descortinar
que há qualquer coisa de novo, de genuíno e
de importante a nascer com João Cunha e
Silva no CETO e com Nuno Marques no Clube de
Ténis do Porto.
Estes dois núcleos têm vindo a afirmar-se
como os centros de treino de eleição no sul
e norte do país, ao qual poderíamos talvez
acrescentar o especializado trabalho, virado
para o ténis feminino, de Paulo Lucas em
Sassoeiros, recentemente reforçado com a
vinda de um grupo de tenistas russas, não
obstante a saída de Magali De Lattre, que
preferiu seguir os passos de Piedade e optar
por uma solução no estrangeiro, mais
concretamente em França.
Esta ascensão de Marques e Cunha e Silva a
treinadores-estrelas, numa fase em que ainda
fazem uns “brilharetes” como jogadores no
circuito mundial de veteranos, faz-me recuar
a meio dos anos 90 do século passado,
quando, em boa hora, João Lagos decidiu
criar o Circuito e o Masters TMN (1995).
Estávamos, então, no período de maior
confiança no ténis português, tudo parecia
correr sobre rodas e lembro-me de José
Carlos Santos Costa, secretário-geral da FPT,
dizer-me: «O nível do ténis português só vai
dar outro salto qualitativo quando estes
quatro que vemos aqui, o João, o Nuno, o
Bernardo e o Emanuel, passarem a treinadores
e trouxeram às novas gerações as
experiências inéditas que viveram e
transmitam às gerações futuras os caminhos
que desbravaram».
Doze anos se passaram desde então e a final
masculina do Masters TMN/CIMA deixou-me
extasiado. A qualidade do duelo entre
Leonardo Tavares e Frederico Gil –
respectivamente jogadores de Nuno Marques e
João Cunha e Silva – fez-me recordar as
proféticas palavras de Santos Costa, agora
incumbido da tarefa (bem desempenhada,
diga-se) de Director de Torneio do Masters.
O primeiro ‘set’, só decidido no ‘tie-break’,
foi uma ode ao bom ténis que se pode
praticar em Portugal e foi impossível não
sentir orgulho por um torneio meramente
interno poder oferecer ao numeroso público
que se deslocou à Quinta dos Lombos, em
Carcavelos, um nível tenístico digno de um ‘Challenger’.
Teve, aliás, piada a reacção algo indignada
de Frederico Gil quando lhe perguntei, em
plena conferência de Imprensa, se tivera a
noção de que tínhamos assistido a uma final
com um nível exibicional semelhante a uma
final de um ‘Challenger’ de 25 mil dólares.
«25 Mil? – ripostou quase inquisitoriamente
o bicampeão nacional – Porquê 25 mil? O Leo
tem um nível de jogo muito elevado. Esta
final mostrou que o nível praticado por
alguns dos nossos jogadores já não é muito
diferente do que vemos em ‘Challengers’ de
25 mil, 50 mil, 75 mil ou até mesmo de
alguns encontros do Circuito ATP. Tem tudo a
ver com a mentalidade. Eu já não olho para
um ‘Challenger’ de baixo para cima como
antigamente. O nível de ténis que
proporcionámos hoje foi muito alto e se
calhar superior a alguns encontros do
Estoril Open. Estamos a um nível parecido, o
que é preciso é as pessoas acreditarem.
Posso dar um exemplo: estive no Peru com o
Leo e ele perdeu no ‘tie-break’ do terceiro
‘set’ com o futuro campeão do torneio».
Acreditar, essa é a palavra-chave e ninguém
acredita mais do que o próprio Gil que, à
semelhança do seu treinador, nunca virou a
cara ao árduo trabalho e tem sabido
maximizar as suas qualidades, minimizando as
suas lacunas, ao ponto de, já hoje, no auge
das suas potencialidades, ser considerado o
terceiro melhor tenista português de sempre,
só atrás de Marques e Cunha e Silva.
É essa crença que tem faltado a Leonardo
Tavares, indiscutivelmente o mais talentoso
jogador português desde Nuno Marques, dono
de um gigantesco potencial, que falta ainda
cumprir por causa de uma saúde frágil (as
lesões e as doenças têm aparecido nos
momentos mais inoportunos) e de uma crónica
falta de confiança.
Que tremenda ironia do destino. Se Gil em
muitos sentidos é um clone de Cunha e Silva,
também Tavares tem imensos pontos comuns com
Marques. Que outro jogador português sabe o
que é ser dono de um incomensurável talento,
ser capaz de se bater de igual para igual
com as maiores estrelas do ténis mundial e
raspar apenas a superfície de toda a glória
que lhe parecia destinada?
Santos Costa tinha razão quando falava há
mais de uma década da transmissão de
experiências às novas gerações. No nosso
país, só o Nuno pode explicar ao Leo a
angústia da situação em que se encontra e
indicar-lhe o caminho a seguir para que
determinados erros não se repitam.
O ténis português precisa muito dos
retirados quatro mosqueteiros, agora
convertidos em treinadores, com humildade
suficiente para se terem submetido aos
programas de formação da FPT – Bernardo Mota
e Cunha e Silva já completaram o Nível-III,
enquanto Emanuel Couto e Marques detêm o
Nível-II. Até nisto têm sido um exemplo.
Mas é preciso que a tradicional inveja
portuguesa não estrague o seu trabalho nem
esmoreça o seu esforço. Como me dizia Cunha
e Silva, já depois de encerrado o Masters
FPT/CIMA: «Nós estamos conscientes desse
papel e eu, pela minha parte, assumo as
minhas responsabilidades nesse sentido, mas,
caramba, só peço que me deixem trabalhar em
paz e não me cortem as pernas».
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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