Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
25º Artigo - Especial Masters FPT/CIMA 2007
8 de Dezembro de 2007


Não Lhes Cortem As Pernas

O belíssimo pavilhão da Quinta dos Lombos esteve decorado ao longo da semana com estandartes dedicados aos “16 magníficos” que tiveram a honra de disputar o 12º Masters português, agora organizado pela Federação Portuguesa de Ténis e patrocinado pela CIMA.

Olhando para aquela galeria de fotos de campeões de consumo interno foi impossível não pensar que, pelas mais diversas razões, seis deles treinam actualmente com João Cunha e Silva e outros dois são orientados por Nuno Marques (que teve metade dos finalistas).

Os dois maiores vultos da história do ténis masculino português, cujos feitos só tiveram equivalência feminina em Frederica Piedade, estiveram ao longo da semana nas bancadas a apoiar os seus “pupilos”, vestindo seriamente os trajes de competentes treinadores.

Não vamos aqui escamotear que nem todos esses oito jogadores, num total de 16, foram “fabricados” por Marques ou Cunha e Silva, mas esse facto é pouco relevante para este caso. Portugal é um dos países em que há complexos em relação a estas situações, verificando-se uma certa dificuldade dos treinadores de formação em perceber quando devem libertar os seus pequenos génios.

Em todo o Mundo desenvolvido do ténis há treinadores que se especializaram em “produzir” jovens promessas mas têm a perfeita noção de que a partir de determinada altura, sobretudo na fase de pré-competição, é preciso deixá-los voar para outras estruturas de apoio mais profissionalizadas.

O que sobressaiu neste Masters FPT/CIMA foi uma nova percepção por parte dos próprios jogadores de alta competição que terão de ser eles a lutar pelos seus interesses e procurar os treinadores que melhores garantias de futuro lhes possam dar, independentemente das críticas que possam ouvir.

O último exemplo foi o de Rui Machado, que integrou o grupo de trabalho de João Cunha e Silva no Clube Escola de Ténis de Oeiras depois da falência do Team Lagos. E, já agora, aproveito para dizer que, apesar das muitas reticências que levantou no meio, deveríamos todos lamentar o definhamento do Team Lagos, cujo conceito era revolucionário em alguns aspectos, mas que depois sentiu sérias dificuldades de concretização prática.

O certo é que, actualmente, e enquanto não se sabe ao certo o que será o Centro de Alto Rendimento do Estádio Nacional que o Instituto do Desporto de Portugal está a desafiar a Federação Portuguesa de Ténis a lançar já em Janeiro, os nossos mais proeminentes jogadores começam a descortinar que há qualquer coisa de novo, de genuíno e de importante a nascer com João Cunha e Silva no CETO e com Nuno Marques no Clube de Ténis do Porto.

Estes dois núcleos têm vindo a afirmar-se como os centros de treino de eleição no sul e norte do país, ao qual poderíamos talvez acrescentar o especializado trabalho, virado para o ténis feminino, de Paulo Lucas em Sassoeiros, recentemente reforçado com a vinda de um grupo de tenistas russas, não obstante a saída de Magali De Lattre, que preferiu seguir os passos de Piedade e optar por uma solução no estrangeiro, mais concretamente em França.

Esta ascensão de Marques e Cunha e Silva a treinadores-estrelas, numa fase em que ainda fazem uns “brilharetes” como jogadores no circuito mundial de veteranos, faz-me recuar a meio dos anos 90 do século passado, quando, em boa hora, João Lagos decidiu criar o Circuito e o Masters TMN (1995).

Estávamos, então, no período de maior confiança no ténis português, tudo parecia correr sobre rodas e lembro-me de José Carlos Santos Costa, secretário-geral da FPT, dizer-me: «O nível do ténis português só vai dar outro salto qualitativo quando estes quatro que vemos aqui, o João, o Nuno, o Bernardo e o Emanuel, passarem a treinadores e trouxeram às novas gerações as experiências inéditas que viveram e transmitam às gerações futuras os caminhos que desbravaram».

Doze anos se passaram desde então e a final masculina do Masters TMN/CIMA deixou-me extasiado. A qualidade do duelo entre Leonardo Tavares e Frederico Gil – respectivamente jogadores de Nuno Marques e João Cunha e Silva – fez-me recordar as proféticas palavras de Santos Costa, agora incumbido da tarefa (bem desempenhada, diga-se) de Director de Torneio do Masters.

O primeiro ‘set’, só decidido no ‘tie-break’, foi uma ode ao bom ténis que se pode praticar em Portugal e foi impossível não sentir orgulho por um torneio meramente interno poder oferecer ao numeroso público que se deslocou à Quinta dos Lombos, em Carcavelos, um nível tenístico digno de um ‘Challenger’.

Teve, aliás, piada a reacção algo indignada de Frederico Gil quando lhe perguntei, em plena conferência de Imprensa, se tivera a noção de que tínhamos assistido a uma final com um nível exibicional semelhante a uma final de um ‘Challenger’ de 25 mil dólares.

«25 Mil? – ripostou quase inquisitoriamente o bicampeão nacional – Porquê 25 mil? O Leo tem um nível de jogo muito elevado. Esta final mostrou que o nível praticado por alguns dos nossos jogadores já não é muito diferente do que vemos em ‘Challengers’ de 25 mil, 50 mil, 75 mil ou até mesmo de alguns encontros do Circuito ATP. Tem tudo a ver com a mentalidade. Eu já não olho para um ‘Challenger’ de baixo para cima como antigamente. O nível de ténis que proporcionámos hoje foi muito alto e se calhar superior a alguns encontros do Estoril Open. Estamos a um nível parecido, o que é preciso é as pessoas acreditarem. Posso dar um exemplo: estive no Peru com o Leo e ele perdeu no ‘tie-break’ do terceiro ‘set’ com o futuro campeão do torneio».

Acreditar, essa é a palavra-chave e ninguém acredita mais do que o próprio Gil que, à semelhança do seu treinador, nunca virou a cara ao árduo trabalho e tem sabido maximizar as suas qualidades, minimizando as suas lacunas, ao ponto de, já hoje, no auge das suas potencialidades, ser considerado o terceiro melhor tenista português de sempre, só atrás de Marques e Cunha e Silva.

É essa crença que tem faltado a Leonardo Tavares, indiscutivelmente o mais talentoso jogador português desde Nuno Marques, dono de um gigantesco potencial, que falta ainda cumprir por causa de uma saúde frágil (as lesões e as doenças têm aparecido nos momentos mais inoportunos) e de uma crónica falta de confiança.

Que tremenda ironia do destino. Se Gil em muitos sentidos é um clone de Cunha e Silva, também Tavares tem imensos pontos comuns com Marques. Que outro jogador português sabe o que é ser dono de um incomensurável talento, ser capaz de se bater de igual para igual com as maiores estrelas do ténis mundial e raspar apenas a superfície de toda a glória que lhe parecia destinada?

Santos Costa tinha razão quando falava há mais de uma década da transmissão de experiências às novas gerações. No nosso país, só o Nuno pode explicar ao Leo a angústia da situação em que se encontra e indicar-lhe o caminho a seguir para que determinados erros não se repitam.

O ténis português precisa muito dos retirados quatro mosqueteiros, agora convertidos em treinadores, com humildade suficiente para se terem submetido aos programas de formação da FPT – Bernardo Mota e Cunha e Silva já completaram o Nível-III, enquanto Emanuel Couto e Marques detêm o Nível-II. Até nisto têm sido um exemplo.

Mas é preciso que a tradicional inveja portuguesa não estrague o seu trabalho nem esmoreça o seu esforço. Como me dizia Cunha e Silva, já depois de encerrado o Masters FPT/CIMA: «Nós estamos conscientes desse papel e eu, pela minha parte, assumo as minhas responsabilidades nesse sentido, mas, caramba, só peço que me deixem trabalhar em paz e não me cortem as pernas».

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


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