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Uma Travessia Sobre Confrontos de Gerações
O Masters
português nasceu com o patrocínio da TMN em
1995, só no sector masculino,
juntando-se-lhe o torneio feminino em 1997.
Estávamos em plena Era dourada do ténis
português, com o quinteto de luxo formado
por João Cunha e Silva, Nuno Marques,
Bernardo Mota, Emanuel Couto e Sofia
Prazeres.
Se entre os homens o equilíbrio era a nota
dominante, nas mulheres o domínio de
Prazeres era tal que andou oito anos
seguidos sem ser derrotada por qualquer
adversária nacional, terminando a sua
carreira com uma segunda vitória no Masters
TMN, em Espinho, em 1998. É sempre bonito
pendurar as raquetas com uma vitória, mas
mais ainda com o sabor especial da
invencibilidade interna.
Esse feito notável poderá permanecer
eternamente na nossa história, já que as nº1
nacionais que lhe sucederam nunca mais
exerceram um reinado tão avassalador
intramuros, não obstante jogadoras como
Frederica Piedade e Neuza Silva terem
coleccionado um palmarés internacional bem
superior.
António Cabral, que treinou Sofia Prazeres
desde menina e acompanhou-a até metade da
sua muito curta carreira profissional,
considera que a sua ex-pupila abandonou
precocemente a alta competição, aos 24 anos,
um ano depois de ter chegado ao 159º posto
do ‘ranking’ mundial, uma classificação só
superada por uma portuguesa – Frederica
Piedade.
Recorda-se António Cabral: «A Sofia tinha
uma mentalidade que nunca tínhamos tido e
nunca mais tivemos. Desde os 11 anos que se
habituou a jogar mais no estrangeiro do que
em Portugal e isso fazia com que sentisse
elevadíssimos níveis de confiança diante de
compatriotas. Não só a Sofia não tinha medo
de medir forças com elas, como jogava os
principais torneios portugueses com a
motivação extra de querer arrasar a
concorrência. Mesmo nos encontros mais
equilibrados, dizia sempre que nunca tinha
estado em perigo, que quando queria
acelerava e resolvia as coisas em seu favor.
O problema da Sofia era a falta de paciência
para jogar torneios pouco relevantes mas é
preciso passar por eles para se chegar aos
maiores eventos do Mundo. Ela só queria
defrontar as grandes figuras da modalidade.
Isso é que a motivava. Lembro-me de uma Taça
Federação em que fui capitão de Portugal. No
sorteio poderia calhar-nos o Brasil ou a
Alemanha e enquanto a Tânia Couto desejava o
Brasil, a Sofia andava a sonhar com a
Alemanha para defrontar a Steffi Graf. Num
torneio como Masters, a Sofia sentia-se como
uma actriz num palco. Com os holofotes todos
virados para ela, era a altura de brilhar e
não fraquejava».
Esta atitude de superioridade
desportivamente arrogante – que a levou a
ganhar os últimos nove Campeonatos Nacionais
que disputou, entre 1990 e 1991 – parecia
estar de volta, nos últimos tempos, ao ténis
feminino português graças a Neuza Silva.
Os Media nacionais não têm querido dar – ou
talvez não se tenham apercebido – a devida
importância ao feito desportivo e pessoal
conseguido por Neuza nos últimos dois anos,
algo que já não me deixa admirado, pois a
Comunicação Social lusa também demorou anos
a descortinar que Frederica Piedade estava
aos poucos a coleccionar o mais rico
palmarés português de sempre no que se
refere ao ténis feminino.
É preciso recuar um pouco e pensar que, aos
22 anos, minada por lesões, Neuza confessou
ter estado mais perto de se reformar do que
em apostar na ressurreição da sua carreira.
Dois anos depois, aos 24 anos, é uma
jogadora nova, capaz de lutar com as
“meninas-prodígio” de todo o Mundo, que
enchem os torneios de 10.000 e 25.000
dólares com apenas 14, 15 ou 16 anos. Não é
fácil.
Em 2006 e 2007, Neuza encetou uma
recuperação espectacular que a levou ao 196º
posto do ‘ranking’ mundial, a terceira
melhor classificação de sempre de uma
portuguesa no WTA Tour. Pelo caminho,
atingiu 12 finais de torneios
internacionais, tendo ganho seis deles.
Durante este período, em Portugal, arrebatou
os dois últimos Campeonatos Nacionais, o
Masters FPT/CIMA do ano passado e era a
grande favorita para revalidar o título na
12ª edição do torneio (a 10ª no sector
feminino) que termina neste Sábado, dia 7. A
sua superioridade interna vinha-se afirmando
mês após mês, torneio após torneio, tendo
sido simbólica a final do Masters FPT/CIMA
do ano passado, ganha diante de Frederica
Piedade. Ao bater a melhor tenista
portuguesa de todos os tempos, Neuza marcou
fortemente a concorrência interna e este ano
arrecadou os cinco torneios do Circuito FPT/CIMA
que disputou.
É neste contexto de enorme supremacia que
deve analisar-se a surpreendente derrota de
Neuza nas meias-finais do Masters FPT/CIMA,
ainda por cima diante de Maria João Koehler,
uma jovem de apenas 15 anos!
Se na final do Masters TMN de 1998 a vitória
de Sofia Prazeres sobre Ana Nogueira poderá
ter funcionado como uma passagem de
testemunho (Ana Nogueira venceu cinco das
seis edições seguintes), também a final de
2007, entre a agora veterana Nogueira e a
adolescente Koehler, poderá ser um sinal dos
novos tempos.
A derrota com Koehler foi a primeira de
Neuza com uma portuguesa desde o desaire
frente a Nogueira na final do Open de
Cantanhede em Maio de 2006, mas mais
surpreendente foi a forma como a jovem lusa
de origem alemã a concretizou.
Maria João já era sobejamente conhecida pelo
seu enorme talento (a fazer lembrar o seu
treinador Nuno Marques), mas também por ter
um jogo errático, do tudo ou nada, sem
plano-b nem margem para erro.
As novidades na forma como lidou com Neuza
Silva foram a estabilidade emocional e a
noção táctica que revelou. Soube ser
agressiva sem cometer faltas não provocadas
em excesso (um dos seus habituais pontos
fracos), apercebeu-se de como tirar partido
de ser esquerdina, não só na variação de
efeitos do serviço, mas sobretudo nas trocas
de bola da sua poderosa direita para a
esquerda em ‘slice’ de Neuza, e geriu muito
bem os chamados momentos-chave do encontro,
designadamente três: quando permitiu a
recuperação de Neuza no primeiro ‘set’ de
2-5 para 4-5, mantendo a cabeça fria para
fechar a 6-4; quando aguentou a subida de
nível de Neuza nos primeiros jogos do
segundo ‘set’; e quando resistiu com
consistência sem deixar de ser agressiva na
fase final do segundo ‘set’ em que Neuza
optou por dar a iniciativa à adversária na
tentativa de levá-la ao erro.
«Ela esteve de facto muito bem e preparou
como deve ser este encontro», disse Nuno
Marques, o treinador e ídolo de Maria João.
A jogadora foi bem mais expansiva nas
explicações: «Não costumava estudar com o
Nuno o jogo das adversárias, mas há dois
dias o Nuno disse-me que talvez não fosse má
ideia ficarmos a ver alguns jogos das outras
e incentivou-me a tirar notas. Acho que deu
resultados positivos hoje».
Ana Nogueira, que vai defrontar Maria João
na final do Masters FPT/CIMA de 2007, depois
de ter necessitado de três ‘sets’ para
derrotá-la em Maio, na final do Open
Fundação da Cidade de Vila Real de Santo
António, é reconhecida pelas suas pares como
uma estratega nata.
Não foi, por isso, por acaso, que Maria João
pediu a Ana para se sentar a seu lado
durante o duelo entre Neuza e Joana Pangaio
(treinada por Nogueira). «A Maria João
fez-me imensas perguntas sobre as minhas
opiniões em relação às direcções do serviço
da Neuza e a muitos outros pormenores». A
aprendizagem do ténis também se faz nestes
detalhes e Maria João parece estar a
interiorizar que o seu reconhecido talento
não é suficiente para singrar ao mais alto
nível.
Ana é, sem dúvida, a jogadora portuguesa
mais inteligente, aquela que melhor gere os
seus atributos técnicos e físicos. Se a
virmos em competição, constatamos que faz
tudo bem, mas nada de extraordinário. Não
tem o melhor serviço, a melhor esquerda, a
melhor direita ou o melhor vólei, mas sabe
fazer de tudo um pouco.
A força desta licenciada em Educação Física
está na inteligente selecção de ‘shots’ em
determinados momentos de jogo, na poupança
de esforços desnecessários e na
interpretação do marcador, não jogando da
mesma forma um 30-15 ou um 15-30.
Na última década, Ana guindou-se e
manteve-se ao mais alto nível do ténis
nacional, atingindo finais de Campeonatos
Nacionais e de Masters e assegurando o seu
lugar na selecção nacional da Fed Cup,
atravessando gerações sucessivas de campeãs.
Quando chegou à sua primeira final do
Masters ainda jogavam Sofia Prazeres e Joana
Pedroso. Depois delas vieram as irmãs
Gaspar, depois foram Helga Vieira e
Frederica Piedade, depois Neuza Silva e
Magali De Lattre e agora está na sua sétima
final do Masters, procurando dilatar o seu
recorde nacional de títulos na competição
para seis, defrontando uma “miúda” de 15
anos.
«Tenho muita pena se tiver de competir menos
no próximo ano», disse-me hoje, referindo-se
ao facto de ter ficado com mais
responsabilidades enquanto treinadora do
Centro de Ténis de Espinho, depois do
técnico André Lopes ter decidido mudar-se
para Lisboa. Com quase duas dezenas de
jovens jogadores de alta competição ou
pré-competição sob sua alçada, Ana sabe que
deverá dispor de muito menos tempo em 2008
para deambular pelo Circuito FPT/CIMA, ela
que, aos 29 anos, em 2007, ainda se deu ao
luxo de conquistar quatro títulos, um deles
num evento internacional de dez mil dólares.
Se esta final do Masters FPT/CIMA for o
“canto de cisne” de Ana Nogueira, não será
só ela, mas todos nós, todo o ténis
português, a lamentar o final de uma
admirável, longa e bem sucedida carreira.
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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