Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
17º Artigo - Especial Masters FPT/CIMA 2006
9 de Dezembro de 2006


Já pensamos em 2007

Foi em total apoteose que terminou o Masters FPT/CIMA de 2006.

O ‘court’ montado no Pavilhão da Quinta dos Lombos esteve apinhado de espectadores e, mesmo sem esgotar, houve momentos com cerca de 500 pessoas presentes em simultâneo. Os jogadores sentiram-se acarinhados pelo público e agradeceram-lhe nos discursos proferidos nas cerimónias de entregas de prémios.

A RTP fez um excelente trabalho, com 7 câmaras instaladas, permitindo uma realização de luxo, que resultou na transmissão em directo da final masculina e em diferido da feminina. Ainda por cima, a RTP mandou vir do Porto o seu cotado comentador, Manuel Perez, valorizando ainda mais o evento.

As finais, sem serem emotivas, tal as superioridades manifestadas por Neuza Silva e Leonardo Tavares, foram de boa qualidade técnica, dada a boa réplica de Frederica Piedade e Tiago Godinho. Também aí os tenistas cumpriram a sua tarefa, proporcionando um bom espectáculo ao público presente e, sobretudo, aos telespectadores, pouco habituados a ver ténis nacional tão agressivo. Só por isso, já valeu a pena o ‘court’ especialmente montado para o torneio.

Nestes artigos de opinião, tenho escrito pouco sobre resultados, mas não queria deixar de salientar o facto de Neuza Silva ter juntado o título deste Masters FPT/CIMA ao obtido anteriormente no Campeonato Nacional Absoluto, sob dois pisos completamente diferentes. Numa época que começou com uma lesão grave, a “pupila” de Paulo Lucas ainda se deu ao luxo de conquistar títulos internacionais em Alcobaça, Vlaardingen (Holanda) e Lérida (Espanha), para além de ter sido vice-campeã em Montemor-o-Novo e Ramat Hasharon (Israel).

No torneio masculino, foi pena o campeão nacional Frederico Gil ter chegado completamente exausto – sobretudo no jogo mental, uma das suas grandes forças –, mas foi emocionante assistir à coroação de tricampeão do Masters de Leonardo Tavares. Após uma temporada minada por lesões, “Leo” regressou em grande, somando quatro títulos consecutivos no Circuito FPT/CIMA. É bom vê-lo de volta e o capitão da selecção nacional da Taça Davis, Pedro Cordeiro, deve ter ficado bem satisfeito por poder contar com ele de novo. O calvário tem sido tal que, quando questionado sobre os seus objectivos para 2007, o nortenho nem pestanejou: «Não me lesionar»!

Mas nem tudo foram rosas nesta 12ª edição do Masters do ténis português e três queixas importantes foram expressas hoje.

Hugo Anão, o vencedor do Circuito FPT/CIMA, ao terminar o ano como nº1 do respectivo ‘ranking’, chamou a atenção para o facto de alguns torneios não estarem a cumprir o Regulamento no que se refere à presença obrigatória de equipas de arbitragem a partir dos quartos-de-final.

Das duas uma, ou a FPT chega à conclusão que os clubes não têm recursos financeiros que lhes permitam custear as arbitragens profissionais e, então, opta por retirar essa obrigatoriedade do Regulamento do Circuito, ou não tem outra saída senão forçar os clubes a cumprir o que está estabelecido. Alerto, contudo, para a importância que esta obrigatoriedade tem tido no desenvolvimento da arbitragem profissional em Portugal, uma das melhores do Mundo, sem qualquer tipo de chauvinismo.

Nesse sentido, foi com agrado que vi o Presidente da FPT, Corrêa de Sampaio, dirigir-se, mais tarde, a Hugo Anão e assegurar-lhe que tinha tomado muita atenção ao seu reparo.

Manuel de Sousa, o popular “Manecas”, proprietário da mais numerosa e bem sucedida escola de ténis do país, com cerca de 900 alunos entre o CIF (Restelo) e Monsanto, andava visivelmente descontente por o seu filho, Pedro Sousa, não se ter qualificado para as meias-finais.

Segundo me confidenciou o especialista de ténis do jornal Record, Manuel de Sousa, treinador do filho, vai enviar um protesto oficial à FPT, alegando que a juiz-árbitro Mariana Alves lhe garantiu que Pedro Sousa estava qualificado para as meias-finais, numa altura em que o Director do torneio, José Carlos Santos Costa, estava ao lado. Como se sabe, mais tarde, à luz do Regulamento, foi Vasco Antunes a seguir em frente, em detrimento de Pedro Sousa.

Sobre esta polémica, há duas vertentes diferentes a ter em conta. Por um lado, um tenista profissional ou a equipa que o rodeia (técnicos e agentes) não deveria entrar para um torneio como o Masters FPT/CIMA sem ter lido e compreendido o Regulamento. E este é bem claro quando diz que, no caso de haver um empate entre três jogadores com o mesmo número de encontros ganhos e perdidos na primeira fase de grupos (‘Round Robin’), se todos os jogadores tiverem disputado três encontros, o critério de desempate é a diferença de ‘sets’ ganhos e perdidos. E se mesmo assim se mantiver um empate, o critério passa a ser entre a diferença de jogos ganhos e perdidos. Foi exactamente este último que ditou a eliminação de Pedro Sousa. O face-a-face (‘head-to-head’) é um sistema de desempate que só é usado quando o empate se verifica entre dois jogadores e não entre três, como foi o caso.

Vale a pena sublinhar que é exactamente este sistema de desempate que vigora na Masters CUP ATP e no Sony Ericsson WTA Tour Championships, os Masters masculino e feminino.

Mas por outro lado, e este é o reverso da medalha, o/a juiz-árbitro e o Director de torneio só deverão emitir “sentenças” sobre os apuramentos para as meias-finais quando tiverem uma certeza absoluta.

O ‘Round Robin’ não é fácil. Cobri como jornalista 11 edições consecutivas do Campeonato do Mundo do ATP Tour/Masters Cup, fui ‘Press Officer’ de 5 edições seguidas do Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp e, este ano, ao comentar para o Eurosport o Sony Ericsson WTA Tour Championships, voltei a deparar-me com as armadilhas deste complexo e aliciante sistema.

Jorge Dias, o melhor árbitro português de sempre, juiz-árbitro do torneio de Vale do Lobo, tem a preocupação de, todos os anos, questionar o representante do ATP Tour of Champions sobre eventuais alterações de interpretação do sistema de desempate para evitar discussões e dúvidas dos “craques” que anualmente nos visitam no Algarve.

Portanto, Pedro Sousa deveria conhecer o Regulamento do Masters FPT/CIMA e não se fiar apenas na palavra de um árbitro ou dirigente. João Cunha e Silva, que chegou a receber um prémio de profissionalismo da revista francesa Tennis Magazine, era exímio em discutir regras e regulamentos com árbitros e dirigentes. É esse o exemplo a seguir. Quanto a Mariana Alves, não sei se garantiu ou não a Pedro Sousa que estava nas meias-finais, mas se o fez terá de precaver-se no futuro. Mariana Alves é um dos maiores vultos mundiais da arbitragem, mas enfrenta poucas vezes a tarefa de ser juiz-árbitro de um torneio de ‘Round Robin’. É importante familiarizar-se com as vicissitudes do sistema.

A terceira e última situação menos famosa de hoje foi o facto de ter sido publicado em O Jogo que Hugo Anão tinha ganho o Circuito FPT/CIMA, enquanto em A Bola, o Jornal Oficial do evento, vinha como nº1 de 2006 Frederico Gil. A informação correcta é Hugo Anão e veja-se, neste caso, o exemplo Frederico Gil – hoje, perguntei-lhe se ele teve alguma dúvida e o campeão nacional respondeu logo que não, pois tinha lido o Regulamento e sabia que não tinha disputado o número mínimo de torneios exigido pelo Regulamento do Circuito para poder almejar ao bónus de 6.000 euros atribuído ao nº1.

A jornalista Célia Lourenço, de A Bola, explicou-me que leu o regulamento, mas ficara com uma dúvida, sendo informada pela Direcção do torneio que seria Gil o vencedor do Circuito.

Estas três situações, a falta de árbitros em alguns torneios, o sistema de desempate na primeira fase de grupos do Masters e o apuramento do nº1 do ‘ranking’, não mancham em nada o enorme sucesso organizativo do Circuito FPT/CIMA e do seu Masters, mas são alertas a exigir um cuidado redobrado no futuro.

Aliás, por falar em futuro, o Director-técnico nacional, Paulo Lucas, informou-me hoje que já estão a ser preparadas algumas alterações ao Regulamento do Circuito FPT/CIMA para 2007. É sinal que a equipa da FPT não dorme sobre os louros conquistados e procurará melhorar o bom produto que tem entre mãos.

E como sempre preferi valorizar os aspectos positivos da vida em relação aos negativos, creio que nós, todos os adeptos da modalidade, deveremos congratular-nos por a CIMA ter anunciado a renovação do patrocínio. Vamos ter mais e melhor Circuito em 2007.

Se não nos encontrarmos antes por aí, ou por aqui, no Luso Ténis, envio a todos os desejos de um Santo Natal.

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


View My Stats