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A perfeição é divina
No passado dia 5 de Agosto
escrevi, aqui, no Luso Ténis, as razões que me levam a considerar o
Circuito FPT/CIMA um dos mais importantes vectores de desenvolvimento do
ténis nacional, tendo feito uma longa exposição dos pontos que me
parecem positivos.
Hoje, no dia em que o Masters FPT/CIMA foi
oficialmente apresentado à Imprensa, não vale a pena repetir os encómios
e gostaria de deter-me apenas nos poucos aspectos negativos que detectei
no regulamento do Circuito FPT/CIMA e que, numa atitude meramente
construtiva, gostaria de partilhar.
Aliás, vale a pena sublinhar que são todas
questões menores, não colocando em causa o valor do Masters e do
Circuito FPT/CIMA. Mas como só as obras divinas podem pretender-se
perfeitas, permitam-me algumas sugestões de melhoria.
A – Prevê-se no regulamento que a actualização do ‘Ranking’ FPT/CIMA
seja efectuada, no mínimo, uma vez por mês. Parece-me bem, embora
devesse estar salvaguardada a obrigatoriedade de ser actualizada no
final de cada torneio do Circuito FPT/CIMA. Era algo que já se passava
no antepassado Circuito TMN e seria importante manter essa
obrigatoriedade. Torna o Circuito mais transparente quando se chega
àquela fase da época em que os torneios se sucedem e os jogadores já só
pensam na qualificação para o Masters.
B – «Os resultados obtidos em torneios internacionais deverão ser
submetidos à FPT pelos próprios atletas…». Este articulado parece-me um
atestado de incompetência – desnecessário – ao Departamento Técnico e ao
Gabinete de Imprensa da FPT.
Bem sabemos das dificuldades de recursos
humanos com que a FPT tradicionalmente se debate, mas esta é uma tarefa
que nunca compete aos jogadores e sim a técnicos ou a administrativos.
No parco panorama do nosso ténis, não temos, infelizmente, assim tantos
jogadores portugueses a disputar competições a contar para os ‘rankings’
mundiais do ATP ou do WTA Tour.
A ideia que se transmite aos Media e a
demais instituições, como, por exemplo, o Instituto do Desporto de
Portugal, é a de que a FPT nem consegue controlar o que fazem os poucos
tenistas portugueses de alta competição.
Nos tempos em que António Flores Marques era
o Director-técnico do Grande Prémio TMN, na João Lagos Sports, ele
sozinho conseguia actualizar o ‘ranking’ com uma regularidade semanal,
integrando os resultados internacionais dos tenistas portugueses e isto
numa época em que o sistema de pontuação era mais complicado, pois
incluía pontos de bónus.
C – Nas conferências de apresentação do Circuito FPT/CIMA e do Masters
FPT/CIMA, intervaladas por vários meses, o Director-técnico nacional
confirmou que o Masters não distribuirá pontos para o ‘Ranking’ da FPT.
Devo dizer que, na generalidade, tenho
apreciado o trabalho de Paulo Lucas à frente da Direcção-técnica
nacional, mas este parece-me um erro crasso.
Há um argumento que tem peso, aquele que
dita que só deverão distribuir pontos para o ‘Ranking’ da FPT torneios
abertos, onde a oportunidade de participação seja igual para todos, ao
contrário do Masters, cujo complexo sistema de qualificação só apura
oito jogadores de cada sexo.
É um fundamento que tem tradição na
estrutura administrativa da FPT mas que, em minha opinião, desemboca em
três consequências nefastas para a modalidade, para o torneio e para o
seu patrocinador.
1 – Não premeia a cultura de mérito de que Portugal tanto carece em
vários sectores de actividade. O «caminho para o socialismo» que existia
na Constituição da República Portuguesa de 1976 foi retirado em
posterior revisão constitucional, mas o seu espírito permanece ainda em
grande parte da sociedade portuguesa.
É por isso que somos tão avessos a prémios de produtividade e tendemos a
pensar que basta somar antiguidade para progredir nos escalões de uma
carreira profissional, em vez de merecer essa progressão em resultados
palpáveis do nosso trabalho.
O facto de um jogador conseguir terminar a época na elite dos oito
apurados para o Masters não deve penalizá-lo, fazendo com que não possa
pontuar para o ‘Ranking’ da FPT. Deve, pelo contrário, dar-lhe mais uma
oportunidade de somar pontos como prémio. Essa é, aliás, a filosofia do
Circuito ATP e do WTA Tour, onde os Masters são os torneios que mais
pontos dão depois das quatro etapas do Grand Slam.
2 – Reduz o Masters FPT/CIMA a uma mera exibição, onde as únicas coisas
que estão em causa são o prestígio e o dinheiro. Há jogadores que
consideram o Masters o principal torneio português, dando-lhe mais
importância do que o Campeonato Nacional Absoluto. Eu também sou dessa
opinião, mas se não contar para o ‘Ranking’ da FPT, não passará de um
evento especial que distribui um ‘chorudo’ prémio global de 30.200
euros. O próprio ‘Ranking’ FPT/CIMA só serve para apurar para o Masters
e para o elevado bónus monetário de final de ano (outros 30.000 euros).
Dir-me-ão que, para um tenista profissional,
o mais importante é o dinheiro que lhe permite investir na sua própria
carreira. Responderei que isso é verdade no curto prazo, mas, no balanço
final de uma vida desportiva há feitos bem mais relevantes. Quem sabe
quantos escudos ou euros ganhou Nuno Marques ao longo de várias
participações no Grande Prémio TMN ou no Masters TMN? Agora, com 36
anos, não são essas verbas que fazem do Director-técnico do Clube de
Ténis do Porto o melhor tenista português de todos os tempos, mas o
facto de ter terminado 10 épocas como nº1 português já contribuiu para
esse estatuto.
Quando o circuito profissional masculino
estava ainda sob a alçada do Conselho Profissional Masculino da
Federação Internacional de Ténis, o Masters também não atribuía pontos
para o ‘ranking’ mundial, por receio que fizesse sombra aos torneios do
Grand Slam. Estou a falar-vos dos anos 70 e 80 do século passado, quando
alguns dos “Quatro Grandes” ainda não tinham a projecção internacional
de que gozam actualmente.
Mas mal o então ATP Tour tomou conta do
Masters em 1990, rebaptizando-o de Campeonato do Mundo, uma das
primeiras medidas foi dar-lhe a capacidade de distribuir muitos pontos
para o ‘ranking’ mundial. A actual Masters Cup ganhou uma enorme
credibilidade e, desde então, decide, quase todos os anos, quem é o nº1
mundial.
Ora é exactamente este mediatismo que rodeia
a eleição de um nº1, neste caso, o nacional, que está vedado ao Masters
FPT/CIMA e, por consequência, aos patrocinadores do torneio. Poderia ser
uma semana de clímax que ditasse o nº1 do ‘Ranking’ da FPT, mas acaba
por não ser mais do que um maná monetário.
3 – Retira ainda mais credibilidade e justiça desportiva ao ‘Ranking’ da
FPT. Se quisermos ser sérios e esquecer interesses mesquinhos, seremos
forçados a reconhecer que os dois torneios mais importantes do Circuito
FPT/CIMA são o Campeonato Nacional Absoluto e o Masters FPT/CIMA. Todos
os torneios do Circuito dão pontos para o ‘Ranking’ da FPT excepto o
Masters. Quem pode garantir que um determinado nº1 nacional merece ficar
historicamente na posse desse estatuto se o nº2 ficar a escassos pontos
e tiver ganho o Masters?
Façamos uma analogia simples: se o Masters
feminino, o Sony Ericsson WTA Tour Championships, não oferecesse pontos
para o ‘ranking’ do WTA Tour, a nº1 mundial de 2006 teria sido a
francesa Amélie Mauresmo. Mas como havia pontos em jogo, o torneio de
Madrid contribuiu – e muito bem – para que fosse coroada líder do
circuito profissional feminino da presente temporada a belga Justine
Henin.
* Hugo
Ribeiro é um dos mais conceituados
jornalistas de ténis em Portugal. É,
actualmente, o "Press Officer" do Vale do
Lobo Grand Champions, um
dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport"
e colaborador de "A Bola do Ténis".
Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João
Lagos Sports, no qual foi redactor principal
do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é
também
editor de "A Bola do Golfe" e "Press
Officer" do "PGA Portugal".
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