Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
14º Artigo - Especial Masters FPT/CIMA 2006
6 de Dezembro de 2006


A perfeição é divina

No passado dia 5 de Agosto escrevi, aqui, no Luso Ténis, as razões que me levam a considerar o Circuito FPT/CIMA um dos mais importantes vectores de desenvolvimento do ténis nacional, tendo feito uma longa exposição dos pontos que me parecem positivos.

Hoje, no dia em que o Masters FPT/CIMA foi oficialmente apresentado à Imprensa, não vale a pena repetir os encómios e gostaria de deter-me apenas nos poucos aspectos negativos que detectei no regulamento do Circuito FPT/CIMA e que, numa atitude meramente construtiva, gostaria de partilhar.

Aliás, vale a pena sublinhar que são todas questões menores, não colocando em causa o valor do Masters e do Circuito FPT/CIMA. Mas como só as obras divinas podem pretender-se perfeitas, permitam-me algumas sugestões de melhoria.

A – Prevê-se no regulamento que a actualização do ‘Ranking’ FPT/CIMA seja efectuada, no mínimo, uma vez por mês. Parece-me bem, embora devesse estar salvaguardada a obrigatoriedade de ser actualizada no final de cada torneio do Circuito FPT/CIMA. Era algo que já se passava no antepassado Circuito TMN e seria importante manter essa obrigatoriedade. Torna o Circuito mais transparente quando se chega àquela fase da época em que os torneios se sucedem e os jogadores já só pensam na qualificação para o Masters.

B – «Os resultados obtidos em torneios internacionais deverão ser submetidos à FPT pelos próprios atletas…». Este articulado parece-me um atestado de incompetência – desnecessário – ao Departamento Técnico e ao Gabinete de Imprensa da FPT.

Bem sabemos das dificuldades de recursos humanos com que a FPT tradicionalmente se debate, mas esta é uma tarefa que nunca compete aos jogadores e sim a técnicos ou a administrativos. No parco panorama do nosso ténis, não temos, infelizmente, assim tantos jogadores portugueses a disputar competições a contar para os ‘rankings’ mundiais do ATP ou do WTA Tour.

A ideia que se transmite aos Media e a demais instituições, como, por exemplo, o Instituto do Desporto de Portugal, é a de que a FPT nem consegue controlar o que fazem os poucos tenistas portugueses de alta competição.

Nos tempos em que António Flores Marques era o Director-técnico do Grande Prémio TMN, na João Lagos Sports, ele sozinho conseguia actualizar o ‘ranking’ com uma regularidade semanal, integrando os resultados internacionais dos tenistas portugueses e isto numa época em que o sistema de pontuação era mais complicado, pois incluía pontos de bónus.

C – Nas conferências de apresentação do Circuito FPT/CIMA e do Masters FPT/CIMA, intervaladas por vários meses, o Director-técnico nacional confirmou que o Masters não distribuirá pontos para o ‘Ranking’ da FPT.

Devo dizer que, na generalidade, tenho apreciado o trabalho de Paulo Lucas à frente da Direcção-técnica nacional, mas este parece-me um erro crasso.

Há um argumento que tem peso, aquele que dita que só deverão distribuir pontos para o ‘Ranking’ da FPT torneios abertos, onde a oportunidade de participação seja igual para todos, ao contrário do Masters, cujo complexo sistema de qualificação só apura oito jogadores de cada sexo.

É um fundamento que tem tradição na estrutura administrativa da FPT mas que, em minha opinião, desemboca em três consequências nefastas para a modalidade, para o torneio e para o seu patrocinador.

1 – Não premeia a cultura de mérito de que Portugal tanto carece em vários sectores de actividade. O «caminho para o socialismo» que existia na Constituição da República Portuguesa de 1976 foi retirado em posterior revisão constitucional, mas o seu espírito permanece ainda em grande parte da sociedade portuguesa.
É por isso que somos tão avessos a prémios de produtividade e tendemos a pensar que basta somar antiguidade para progredir nos escalões de uma carreira profissional, em vez de merecer essa progressão em resultados palpáveis do nosso trabalho.
O facto de um jogador conseguir terminar a época na elite dos oito apurados para o Masters não deve penalizá-lo, fazendo com que não possa pontuar para o ‘Ranking’ da FPT. Deve, pelo contrário, dar-lhe mais uma oportunidade de somar pontos como prémio. Essa é, aliás, a filosofia do Circuito ATP e do WTA Tour, onde os Masters são os torneios que mais pontos dão depois das quatro etapas do Grand Slam.

2 – Reduz o Masters FPT/CIMA a uma mera exibição, onde as únicas coisas que estão em causa são o prestígio e o dinheiro. Há jogadores que consideram o Masters o principal torneio português, dando-lhe mais importância do que o Campeonato Nacional Absoluto. Eu também sou dessa opinião, mas se não contar para o ‘Ranking’ da FPT, não passará de um evento especial que distribui um ‘chorudo’ prémio global de 30.200 euros. O próprio ‘Ranking’ FPT/CIMA só serve para apurar para o Masters e para o elevado bónus monetário de final de ano (outros 30.000 euros).

Dir-me-ão que, para um tenista profissional, o mais importante é o dinheiro que lhe permite investir na sua própria carreira. Responderei que isso é verdade no curto prazo, mas, no balanço final de uma vida desportiva há feitos bem mais relevantes. Quem sabe quantos escudos ou euros ganhou Nuno Marques ao longo de várias participações no Grande Prémio TMN ou no Masters TMN? Agora, com 36 anos, não são essas verbas que fazem do Director-técnico do Clube de Ténis do Porto o melhor tenista português de todos os tempos, mas o facto de ter terminado 10 épocas como nº1 português já contribuiu para esse estatuto.

Quando o circuito profissional masculino estava ainda sob a alçada do Conselho Profissional Masculino da Federação Internacional de Ténis, o Masters também não atribuía pontos para o ‘ranking’ mundial, por receio que fizesse sombra aos torneios do Grand Slam. Estou a falar-vos dos anos 70 e 80 do século passado, quando alguns dos “Quatro Grandes” ainda não tinham a projecção internacional de que gozam actualmente.

Mas mal o então ATP Tour tomou conta do Masters em 1990, rebaptizando-o de Campeonato do Mundo, uma das primeiras medidas foi dar-lhe a capacidade de distribuir muitos pontos para o ‘ranking’ mundial. A actual Masters Cup ganhou uma enorme credibilidade e, desde então, decide, quase todos os anos, quem é o nº1 mundial.

Ora é exactamente este mediatismo que rodeia a eleição de um nº1, neste caso, o nacional, que está vedado ao Masters FPT/CIMA e, por consequência, aos patrocinadores do torneio. Poderia ser uma semana de clímax que ditasse o nº1 do ‘Ranking’ da FPT, mas acaba por não ser mais do que um maná monetário.

3 – Retira ainda mais credibilidade e justiça desportiva ao ‘Ranking’ da FPT. Se quisermos ser sérios e esquecer interesses mesquinhos, seremos forçados a reconhecer que os dois torneios mais importantes do Circuito FPT/CIMA são o Campeonato Nacional Absoluto e o Masters FPT/CIMA. Todos os torneios do Circuito dão pontos para o ‘Ranking’ da FPT excepto o Masters. Quem pode garantir que um determinado nº1 nacional merece ficar historicamente na posse desse estatuto se o nº2 ficar a escassos pontos e tiver ganho o Masters?

Façamos uma analogia simples: se o Masters feminino, o Sony Ericsson WTA Tour Championships, não oferecesse pontos para o ‘ranking’ do WTA Tour, a nº1 mundial de 2006 teria sido a francesa Amélie Mauresmo. Mas como havia pontos em jogo, o torneio de Madrid contribuiu – e muito bem – para que fosse coroada líder do circuito profissional feminino da presente temporada a belga Justine Henin.

* Hugo Ribeiro é um dos mais conceituados jornalistas de ténis em Portugal. É, actualmente, o "Press Officer" do Vale do Lobo Grand Champions, um  dos habituais comentadores de ténis da "Eurosport" e colaborador de "A Bola do Ténis". Já pertenceu ao Gabinete de Imprensa da João Lagos Sports, no qual foi redactor principal do anuário "Ténis Europeu". Hugo Ribeiro é também editor de "A Bola do Golfe" e "Press Officer" do "PGA Portugal".

 

 


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