Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
13º Artigo - Especial Vale do Lobo Grand Champions 2006
12 de Agosto de 2006


Prevenir uma crise de crescimento

O circuito mundial de veteranos não está agonizante, muito pelo contrário, tem revelado uma pujança notável e adivinha-se um brilhante futuro à sua frente, mas é preciso prevenir uma previsível crise de crescimento.

Pedro Frazão, o “patrão” do Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp, tem assento nas reuniões de directores de torneios do Merrill Lynch ATP Tour of Champions, onde estes temas são discutidos com regularidade pelo que valeu a pena auscultá-lo sobre para onde vai este ‘Tour’.

«O tempo dos brincalhões, como o Yannick Noah, o Henri Leconte e o Mansour Bahrami, já acabou, definitivamente. Foi importante para cimentar o circuito, mas já não tem lugar na realidade actual, pelo que temos de encontrar novas maneiras de promoção».

O meu primeiro torneio de ténis no estrangeiro como jornalista especializado na matéria foi em 1989 e lembro-me perfeitamente que um dos grandes assuntos da época era o facto de o circuito – então chamado de Grande Prémio e liderado pela Federação Internacional de Ténis (ITF) – estar a entrar em crise.

Bjorn Borg e Guillermo Vilas já se tinham reformado, Jimmy Connors estava a caminho, John McEnroe andava longe dos seus tempos áureos e, dizia-se, faltavam grandes campeões e grandes personalidades. Boris Becker era o único com um carisma algo equivalente a esses ícones dos anos 70 e 80, uma vez que Ivan Lendl, Mats Wilander e Stefan Edberg, apesar de muito conhecidos e de excelentes executantes, não conseguiam ultrapassar a restrita esfera do ténis mundial.

Durante alguns anos, falou-se, efectivamente, de uma crise, ainda por cima, coincidindo com o grande cisma do ténis, que fez nascer, em 1990, o ATP Tour, à revelia da ITF.

Foi, então, que a geração de ouro do ténis americano veio salvar a situação. André Agassi foi o grande impulsionador, mas Pete Sampras, Jim Courier e Michael Chang também ajudaram à festa.

É esse o cenário que revivemos agora no circuito mundial de veteranos. Bjorn Borg e Jimmy Connors já só jogam Pro-ams e exibições; Guillermo Vilas, segundo Pedro Frazão, suplica por convites, mas quase já ninguém o chama; John McEnroe ainda sonha manter-se em actividade até aos 50 anos, mas viu-se na final de ontem do Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp que não tem “pedalada” para os jovens trintões veteranos. Ele próprio disse que «levar com o serviço do Goran Ivanisevic numa carpeta super rápida, ou com as ‘spinadas’ do Sergi Bruguera numa terra batida lenta, põem-nos a pensar o que é que andamos a fazer aqui». Foi o mesmo tipo de sensação da final com Marcelo Rios: «No primeiro ‘set’, não parecia que tinha 17 anos de diferença dele, mas 38!».

Não admira que Pedro Frazão tenha discordado veemente de McEnroe: «Compreendo a posição dele, mas não acho que jogadores mais jovens como o Rios devessem ser impedidos de jogar este ‘Tour’. O que se passa é que o McEnroe é a excepção. Se olharmos à volta, não há mais ninguém com 47 anos capaz de jogar desta forma. Os outros jogadores andam todos na casa dos 30’s e vai ser cada vez mais assim».

Para o director do único torneio português no Merrill Lynch ATP Tour of Champions, a saída inevitável de cena de Borg, Connors e McEnroe terá de ser colmatada com o ingresso de novas estrelas. «Há ainda muito bons nomes que não vieram a Vale do Lobo, casos do Ivanisevic e do Bruguera e há jogadores que, mais tarde ou mais cedo irão entrar no ‘Tour’, como o Rafter, o Chang e, estou convencido, dentro de uns dois anos, o Sampras».

Boris Becker parece uma carta fora do baralho. «O Becker não me merece confiança». Frazão tem razões para dizê-lo. José Neves, o relações públicas do torneio, destacado para ser o ‘baby-sitter’ dos jogadores no Algarve (que conheceu várias fornadas de campeões quando tinha um restaurante em Londres e os jogadores iam lá jantar durante a quinzena de Wimbledon), contou-me que o Becker é cada vez menos solicitado no ‘Tour’ porque não trabalha fisicamente o que deveria. A consequência é a inevitável série de lesões que sofre, por não estar preparado para um sistema que obriga os jogadores a quatro encontros em quatro dias. O alemão remete-se cada vez mais às exibições de um único dia.

A questão que se coloca agora ao Merrill Lynch ATP Tour of Champions é saber se esta nova fornada de trintões tem o carisma dos quarentões. Pessoalmente, acho que não e David Law, o ‘press officer’ da ATP concorda comigo: «No vosso torneio, totalmente dominado pelo mercado britânico, McEnroe, Cash e talvez Ivanisevic são as grandes figuras. Os outros pouco importam. Creio até que muitos dos espectadores que vieram cá este ano nem sabiam quem era este Rios».

Quando o David me disse isto, antes da final, confesso que franzi cepticamente o sobrolho, mas depois da cerimónia de entrega de prémios dei-lhe toda a razão. Como “mestre-de-cerimónias”, coube-me chamar os jogadores, um a um, para receberem os seus prémios e, para espanto meu, só houve um jogador que rivalizou com McEnroe em vibrantes aplausos… Pat Cash!

Olhando para os últimos anos do Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp, dos novos campeões que foram entrando, nem Rios, nem Krajicek, nem Stich souberam animar as multidões. Só Jim Courier, em 2004, conseguiu a excelente combinação de qualidade de jogo e espírito de ‘entretainer’. Thomas Muster mostrou grandes potencialidades este ano, mas é preciso que venham mais portugueses ao torneio, pois o austríaco tem mais adeptos lusos do que anglo-saxónicos.

Temo que, devido ao seu ‘low profile’, Korda, Bruguera, Chang e até mesmo de Sampras não se revelem capazes de colmatar as ausências de Borg, Connors, McEnroe e do impagável Noah. André Agassi é o único que vejo com magnetismo suficiente para fazê-lo, embora suspeite que Rafter e Ivanisevic possuam igualmente uma química muito especial com o público e os media.

Para prevenir uma previsível crise de crescimento, apresentaria as seguintes soluções:

1 – Unificar o Merril Lynch ATP Tour of Champions com o Outback Champions Series (o circuito americano, organizado por uma empresa que tem capitais de Jim Courier). Não faz sentido haver dois circuitos de veteranos (como sucede no golfe) e muito menos dois rankings de veteranos.

2 – Reintroduzir os prémios monetários oficiais. Hoje em dia, só o Masters de Londres tem um prémio oficial de 100 mil dólares para o vencedor. Embora estes grandes campeões tenham sempre o seu prestígio em jogo, não cai bem ao público saber que, por exemplo, Marcelo Rios ganharia sempre o mesmo em Vale do Lobo, mesmo que tivesse perdido todos os seus encontros. Não sou contra as garantias financeiras, mas prefiro o sistema que a ATP tem em alguns torneios do circuito principal (por exemplo, o Estoril Open), com prémios oficiais e ‘cachets’ confidenciais.

3 – Promover cada vez mais o Masters de Londres como o grande torneio do circuito. Em tudo na vida necessitamos de referências. Quando não as temos, desvalorizamos o que nos rodeia. Tendo em conta que os torneios do Grand Slam se recusam a organizar torneios de singulares de veteranos, com receio da concorrência, o Masters deveria assumir esse papel.

4 – Envolver de alguma forma a geração mais velha de veteranos. Na conferência de Imprensa de encerramento da sexta edição do seu torneio, Pedro Frazão referiu-se à sugestão que apresentei ontem, aqui, no Luso Ténis, de criarem-se dois grupos, um para maiores de 45 anos e outro para maiores de 30 anos. O presidente da Premier Sports rejeita essa hipótese porque, para ele, é importantíssimo ter uma final. Aceito o argumento, embora mantenha a posição que defendi ontem. Mas é sempre possível chegar a um compromisso e criar torneios de 5 dias em vez de 4, passando a haver apenas 3 encontros por jornada para o torneio principal. Abrir-se-ia, assim, espaço para 1 duelo por dia para um ‘round robin’ para os mais idosos. E querem uma aposta? Nos 4 primeiros dias, haveria mais gente a assistir a um McEnroe-Borg, McEnroe-Cash, Borg-Connors, Borg-Vilas ou Noah-Leconte, do que a um Rios-Bruguera ou Chang-Sampras. Agora, também reconheço que se algum dia voltássemos a ter um Sampras-Agassi, a história seria outra…

 

 


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