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Prevenir uma crise
de crescimento
O circuito
mundial de veteranos não está agonizante,
muito pelo contrário, tem revelado uma
pujança notável e adivinha-se um brilhante
futuro à sua frente, mas é preciso prevenir
uma previsível crise de crescimento.
Pedro Frazão,
o “patrão” do Vale do Lobo Grand Champions
Millennium bcp, tem assento nas reuniões de
directores de torneios do Merrill Lynch ATP
Tour of Champions, onde estes temas são
discutidos com regularidade pelo que valeu a
pena auscultá-lo sobre para onde vai este ‘Tour’.
«O tempo dos
brincalhões, como o Yannick Noah, o Henri
Leconte e o Mansour Bahrami, já acabou,
definitivamente. Foi importante para
cimentar o circuito, mas já não tem lugar na
realidade actual, pelo que temos de
encontrar novas maneiras de promoção».
O meu primeiro
torneio de ténis no estrangeiro como
jornalista especializado na matéria foi em
1989 e lembro-me perfeitamente que um dos
grandes assuntos da época era o facto de o
circuito – então chamado de Grande Prémio e
liderado pela Federação Internacional de
Ténis (ITF) – estar a entrar em crise.
Bjorn Borg e
Guillermo Vilas já se tinham reformado,
Jimmy Connors estava a caminho, John McEnroe
andava longe dos seus tempos áureos e,
dizia-se, faltavam grandes campeões e
grandes personalidades. Boris Becker era o
único com um carisma algo equivalente a
esses ícones dos anos 70 e 80, uma vez que
Ivan Lendl, Mats Wilander e Stefan Edberg,
apesar de muito conhecidos e de excelentes
executantes, não conseguiam ultrapassar a
restrita esfera do ténis mundial.
Durante alguns
anos, falou-se, efectivamente, de uma crise,
ainda por cima, coincidindo com o grande
cisma do ténis, que fez nascer, em 1990, o
ATP Tour, à revelia da ITF.
Foi, então,
que a geração de ouro do ténis americano
veio salvar a situação. André Agassi foi o
grande impulsionador, mas Pete Sampras, Jim
Courier e Michael Chang também ajudaram à
festa.
É esse o
cenário que revivemos agora no circuito
mundial de veteranos. Bjorn Borg e Jimmy
Connors já só jogam Pro-ams e exibições;
Guillermo Vilas, segundo Pedro Frazão,
suplica por convites, mas quase já ninguém o
chama; John McEnroe ainda sonha manter-se em
actividade até aos 50 anos, mas viu-se na
final de ontem do Vale do Lobo Grand
Champions Millennium bcp que não tem
“pedalada” para os jovens trintões
veteranos. Ele próprio disse que «levar com
o serviço do Goran Ivanisevic numa carpeta
super rápida, ou com as ‘spinadas’ do Sergi
Bruguera numa terra batida lenta, põem-nos a
pensar o que é que andamos a fazer aqui».
Foi o mesmo tipo de sensação da final com
Marcelo Rios: «No primeiro ‘set’, não
parecia que tinha 17 anos de diferença dele,
mas 38!».
Não admira que
Pedro Frazão tenha discordado veemente de
McEnroe: «Compreendo a posição dele, mas não
acho que jogadores mais jovens como o Rios
devessem ser impedidos de jogar este ‘Tour’.
O que se passa é que o McEnroe é a excepção.
Se olharmos à volta, não há mais ninguém com
47 anos capaz de jogar desta forma. Os
outros jogadores andam todos na casa dos
30’s e vai ser cada vez mais assim».
Para o
director do único torneio português no
Merrill Lynch ATP Tour of Champions, a saída
inevitável de cena de Borg, Connors e
McEnroe terá de ser colmatada com o ingresso
de novas estrelas. «Há ainda muito bons
nomes que não vieram a Vale do Lobo, casos
do Ivanisevic e do Bruguera e há jogadores
que, mais tarde ou mais cedo irão entrar no
‘Tour’, como o Rafter, o Chang e, estou
convencido, dentro de uns dois anos, o
Sampras».
Boris Becker
parece uma carta fora do baralho. «O Becker
não me merece confiança». Frazão tem razões
para dizê-lo. José Neves, o relações
públicas do torneio, destacado para ser o
‘baby-sitter’ dos jogadores no Algarve (que
conheceu várias fornadas de campeões quando
tinha um restaurante em Londres e os
jogadores iam lá jantar durante a quinzena
de Wimbledon), contou-me que o Becker é cada
vez menos solicitado no ‘Tour’ porque não
trabalha fisicamente o que deveria. A
consequência é a inevitável série de lesões
que sofre, por não estar preparado para um
sistema que obriga os jogadores a quatro
encontros em quatro dias. O alemão remete-se
cada vez mais às exibições de um único dia.
A questão que
se coloca agora ao Merrill Lynch ATP Tour of
Champions é saber se esta nova fornada de
trintões tem o carisma dos quarentões.
Pessoalmente, acho que não e David Law, o
‘press officer’ da ATP concorda comigo: «No
vosso torneio, totalmente dominado pelo
mercado britânico, McEnroe, Cash e talvez
Ivanisevic são as grandes figuras. Os outros
pouco importam. Creio até que muitos dos
espectadores que vieram cá este ano nem
sabiam quem era este Rios».
Quando o David
me disse isto, antes da final, confesso que
franzi cepticamente o sobrolho, mas depois
da cerimónia de entrega de prémios dei-lhe
toda a razão. Como “mestre-de-cerimónias”,
coube-me chamar os jogadores, um a um, para
receberem os seus prémios e, para espanto
meu, só houve um jogador que rivalizou com
McEnroe em vibrantes aplausos… Pat Cash!
Olhando para
os últimos anos do Vale do Lobo Grand
Champions Millennium bcp, dos novos campeões
que foram entrando, nem Rios, nem Krajicek,
nem Stich souberam animar as multidões. Só
Jim Courier, em 2004, conseguiu a excelente
combinação de qualidade de jogo e espírito
de ‘entretainer’. Thomas Muster mostrou
grandes potencialidades este ano, mas é
preciso que venham mais portugueses ao
torneio, pois o austríaco tem mais adeptos
lusos do que anglo-saxónicos.
Temo que,
devido ao seu ‘low profile’, Korda, Bruguera,
Chang e até mesmo de Sampras não se revelem
capazes de colmatar as ausências de Borg,
Connors, McEnroe e do impagável Noah. André
Agassi é o único que vejo com magnetismo
suficiente para fazê-lo, embora suspeite que
Rafter e Ivanisevic possuam igualmente uma
química muito especial com o público e os
media.
Para prevenir
uma previsível crise de crescimento,
apresentaria as seguintes soluções:
1 – Unificar o
Merril Lynch ATP Tour of Champions com o
Outback Champions Series (o circuito
americano, organizado por uma empresa que
tem capitais de Jim Courier). Não faz
sentido haver dois circuitos de veteranos
(como sucede no golfe) e muito menos dois
rankings de veteranos.
2 –
Reintroduzir os prémios monetários oficiais.
Hoje em dia, só o Masters de Londres tem um
prémio oficial de 100 mil dólares para o
vencedor. Embora estes grandes campeões
tenham sempre o seu prestígio em jogo, não
cai bem ao público saber que, por exemplo,
Marcelo Rios ganharia sempre o mesmo em Vale
do Lobo, mesmo que tivesse perdido todos os
seus encontros. Não sou contra as garantias
financeiras, mas prefiro o sistema que a ATP
tem em alguns torneios do circuito principal
(por exemplo, o Estoril Open), com prémios
oficiais e ‘cachets’ confidenciais.
3 – Promover
cada vez mais o Masters de Londres como o
grande torneio do circuito. Em tudo na vida
necessitamos de referências. Quando não as
temos, desvalorizamos o que nos rodeia.
Tendo em conta que os torneios do Grand Slam
se recusam a organizar torneios de
singulares de veteranos, com receio da
concorrência, o Masters deveria assumir esse
papel.
4 – Envolver
de alguma forma a geração mais velha de
veteranos. Na conferência de Imprensa de
encerramento da sexta edição do seu torneio,
Pedro Frazão referiu-se à sugestão que
apresentei ontem, aqui, no Luso Ténis, de
criarem-se dois grupos, um para maiores de
45 anos e outro para maiores de 30 anos. O
presidente da Premier Sports rejeita essa
hipótese porque, para ele, é importantíssimo
ter uma final. Aceito o argumento, embora
mantenha a posição que defendi ontem. Mas é
sempre possível chegar a um compromisso e
criar torneios de 5 dias em vez de 4,
passando a haver apenas 3 encontros por
jornada para o torneio principal.
Abrir-se-ia, assim, espaço para 1 duelo por
dia para um ‘round robin’ para os mais
idosos. E querem uma aposta? Nos 4 primeiros
dias, haveria mais gente a assistir a um
McEnroe-Borg, McEnroe-Cash, Borg-Connors,
Borg-Vilas ou Noah-Leconte, do que a um
Rios-Bruguera ou Chang-Sampras. Agora,
também reconheço que se algum dia
voltássemos a ter um Sampras-Agassi, a
história seria outra…
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