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Uma questão de
idades
Escrevo este
texto antes da final do Vale do Lobo Grand
Champions Millennium bcp, mas é previsível
que Marcelo Rios tente humilhar John McEnroe,
tal a aversão que lhe vem dos tempos em que
o chileno ainda jogava no ATP Tour e o
norte-americano tecia comentários pouco
abonatórios a seu favor.
Mal ingressou
no Merrill Lynch ATP Tour of Champions, Rios
concentrou-se em provocar um confronto com
McEnroe. «Ele é um fala-barato e digam-lhe
que se prepare para sofrer e para perder»,
declarou “El Chino”, depois de ganhar o seu
segundo título consecutivo em Hong Kong, ao
jeito de um ‘boxeur’.
‘Big Mac’, que
também é brigão, respondeu em Barcelona que
«ele está a ficar velhote, por isso, é
melhor defrontar-me antes de voltar a
reformar-se».
Este ambiente
algo tenso atingiu o seu clímax em Vale do
Lobo onde ambos participaram, pela primeira
vez, no mesmo torneio. O aperto de mão que
deram no ‘cocktail’ de apresentação dos
jogadores, na terça-feira, foi gélido e
supersónico, sem qualquer troca de palavras
e, na quinta-feira, encontraram-se no
‘court’ para um dos ‘Pro-ams’, tendo o
sul-americano ganho por 6-2.
Ontem à tarde,
depois de averbar o seu terceiro triunfo
consecutivo na prova e de manter a
invencibilidade no circuito mundial de
veteranos, Rios declarou, na entrevista que
lhe fiz no ‘court’, que queria «defrontar
McEnroe na final» e John fez-lhe a vontade,
derrotando, pouco tempo depois, Carl-Uwe
Steeb.
Na conferência
de Imprensa, McEnroe foi realista: «Sei que
sou capaz de atingir um nível que talvez me
permita batê-lo, mas neste torneio, apesar
de ter vindo a jogar melhor de encontro para
encontro, ainda não cheguei lá. É um dos
maiores desafios com que já me deparei neste
circuito, a par de defrontar Jim Courier e
Sergi Bruguera em terra batida, ou Goran
Ivanisevic em carpeta super rápida».
Sejamos
honestos, Rios tem 30 anos e McEnroe 47. Uma
diferença de 17 anos é praticamente
inultrapassável. Ténis não é golfe e seria
preciso um milagre para que o novaiorquino
conseguisse o tricampeonato no Vale do Lobo
Grand Champions Millennium bcp.
Se pensarmos
que há jogadores como André Agassi, com 36
anos, que só agora se vai retirar do
circuito, ou como Jonas Bjorkman que jogou
as meias-finais de Wimbledon aos 34 anos,
fácil é de constatar que, se o débil físico
não fosse um ‘handicap’, Rios deveria ainda
estar no circuito ATP.
«Ele tem um
talento incrível e estaria facilmente no
‘top-100’ mundial. A partir desse momento,
tudo seria possível», declarou Nuno Marques.
Quando nasceu,
em 1992, o Merrill Lynch ATP Tour of
Champions estabelecia no regulamento que só
podiam participar jogadores com mais de 35
anos. Mais tarde, reduziu-se essa idade para
30 anos e, actualmente, o regulamento diz
apenas que um jogador tem de ter disputado o
seu último encontro de singulares no
circuito ATP dois anos antes de ingressar
nos veteranos.
É uma situação
ridícula. Imagine-se que, tal como aconteceu
com Bjorn Borg em 1981, uma super-estrela
decide pendurar de vez as raquetas aos 25
anos. Aos 27 poderia brilhar nos veteranos…
Na conferência
de Imprensa, McEnroe foi claro: «Se eu
mandasse neste circuito de veteranos, um
jogador de 30 anos não poderia estar aqui.
Não faz sentido. Não quero criticar os
responsáveis, pois eles ainda não sabem bem
o que querem e o que andam a fazer. Estão a
tentar promover o circuito da melhor maneira
que sabem, mas, para mim, este Merrill Lynch
ATP Tour of Champions tem um enorme
potencial e não está a ser explorado
devidamente».
David Law, o
responsável pelo Gabinete de Imprensa deste
Tour, confessou-me hoje que McEnroe sonha
manter-se em actividade até aos 50 anos, mas
a concorrência é cada vez mais dura e, sendo
ele um vencedor nato, não admitirá continuar
se deixar de qualificar-se para as finais.
«A lei da vida
é assim mesmo e estamos a tentar que
“reformados” como o Pete Sampras, o Pat
Rafter e o Michael Chang venham jogar o
nosso ‘Tour’. Talvez tenha chegado a minha
vez de sair de cena», lamentou o
heptacampeão de torneios do Grand Slam.
Na minha muito
modesta opinião, que em nada pode
influenciar as grandes decisões do ténis
internacional, a solução poderia estar no
modelo que vi em torneios de veteranos nos
anos 80. Nessa altura, havia também dois
grupos de todos-contra-todos, mas com
escalões etários diferentes. Lembro-me de
ver actuar “velhotes” como Rod Laver e Ken
Rosewall, ao mesmo tempo que assistia a
duelos entre, os então benjamins, Ilie
Nastase e Adriano Panatta.
Estou
plenamente convencido de que o público
adoraria ver no Vale do Lobo Grand Champions
Millennium bcp um grupo de mais de 45 anos
com John McEnroe, Bjorn Borg, Jimmy Connors
e Guillermo Vilas, tendo, paralelamente, a
hipótese de testemunhar o excelente ténis
que ainda são capazes de praticar Thomas
Muster, Marcelo Rios, Goran Ivanisevic e
Sergi Bruguera.
O único senão
deste formato, é que não tem uma grande
final. O vencedor do torneio é o primeiro
classificado de cada grupo e tanto o
público, como os patrocinadores e os media
gostam de desfechos espectaculares. Como
dizia a personagem de Salieri no filme
Amadeus, de Milos Forman, «ele nem lhes deu
um ‘big bang’, um grande ‘finale’», mas não
foi por isso que Mozart deixou de conceber
obras-primas.
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