Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
12º Artigo - Especial Vale do Lobo Grand Champions 2006
11 de Agosto de 2006


Uma questão de idades

Escrevo este texto antes da final do Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp, mas é previsível que Marcelo Rios tente humilhar John McEnroe, tal a aversão que lhe vem dos tempos em que o chileno ainda jogava no ATP Tour e o norte-americano tecia comentários pouco abonatórios a seu favor.

Mal ingressou no Merrill Lynch ATP Tour of Champions, Rios concentrou-se em provocar um confronto com McEnroe. «Ele é um fala-barato e digam-lhe que se prepare para sofrer e para perder», declarou “El Chino”, depois de ganhar o seu segundo título consecutivo em Hong Kong, ao jeito de um ‘boxeur’.

‘Big Mac’, que também é brigão, respondeu em Barcelona que «ele está a ficar velhote, por isso, é melhor defrontar-me antes de voltar a reformar-se».

Este ambiente algo tenso atingiu o seu clímax em Vale do Lobo onde ambos participaram, pela primeira vez, no mesmo torneio. O aperto de mão que deram no ‘cocktail’ de apresentação dos jogadores, na terça-feira, foi gélido e supersónico, sem qualquer troca de palavras e, na quinta-feira, encontraram-se no ‘court’ para um dos ‘Pro-ams’, tendo o sul-americano ganho por 6-2.

Ontem à tarde, depois de averbar o seu terceiro triunfo consecutivo na prova e de manter a invencibilidade no circuito mundial de veteranos, Rios declarou, na entrevista que lhe fiz no ‘court’, que queria «defrontar McEnroe na final» e John fez-lhe a vontade, derrotando, pouco tempo depois, Carl-Uwe Steeb.

Na conferência de Imprensa, McEnroe foi realista: «Sei que sou capaz de atingir um nível que talvez me permita batê-lo, mas neste torneio, apesar de ter vindo a jogar melhor de encontro para encontro, ainda não cheguei lá. É um dos maiores desafios com que já me deparei neste circuito, a par de defrontar Jim Courier e Sergi Bruguera em terra batida, ou Goran Ivanisevic em carpeta super rápida».

Sejamos honestos, Rios tem 30 anos e McEnroe 47. Uma diferença de 17 anos é praticamente inultrapassável. Ténis não é golfe e seria preciso um milagre para que o novaiorquino conseguisse o tricampeonato no Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp.

Se pensarmos que há jogadores como André Agassi, com 36 anos, que só agora se vai retirar do circuito, ou como Jonas Bjorkman que jogou as meias-finais de Wimbledon aos 34 anos, fácil é de constatar que, se o débil físico não fosse um ‘handicap’, Rios deveria ainda estar no circuito ATP.

«Ele tem um talento incrível e estaria facilmente no ‘top-100’ mundial. A partir desse momento, tudo seria possível», declarou Nuno Marques.

Quando nasceu, em 1992, o Merrill Lynch ATP Tour of Champions estabelecia no regulamento que só podiam participar jogadores com mais de 35 anos. Mais tarde, reduziu-se essa idade para 30 anos e, actualmente, o regulamento diz apenas que um jogador tem de ter disputado o seu último encontro de singulares no circuito ATP dois anos antes de ingressar nos veteranos.

É uma situação ridícula. Imagine-se que, tal como aconteceu com Bjorn Borg em 1981, uma super-estrela decide pendurar de vez as raquetas aos 25 anos. Aos 27 poderia brilhar nos veteranos…

Na conferência de Imprensa, McEnroe foi claro: «Se eu mandasse neste circuito de veteranos, um jogador de 30 anos não poderia estar aqui. Não faz sentido. Não quero criticar os responsáveis, pois eles ainda não sabem bem o que querem e o que andam a fazer. Estão a tentar promover o circuito da melhor maneira que sabem, mas, para mim, este Merrill Lynch ATP Tour of Champions tem um enorme potencial e não está a ser explorado devidamente».

David Law, o responsável pelo Gabinete de Imprensa deste Tour, confessou-me hoje que McEnroe sonha manter-se em actividade até aos 50 anos, mas a concorrência é cada vez mais dura e, sendo ele um vencedor nato, não admitirá continuar se deixar de qualificar-se para as finais.

«A lei da vida é assim mesmo e estamos a tentar que “reformados” como o Pete Sampras, o Pat Rafter e o Michael Chang venham jogar o nosso ‘Tour’. Talvez tenha chegado a minha vez de sair de cena», lamentou o heptacampeão de torneios do Grand Slam.

Na minha muito modesta opinião, que em nada pode influenciar as grandes decisões do ténis internacional, a solução poderia estar no modelo que vi em torneios de veteranos nos anos 80. Nessa altura, havia também dois grupos de todos-contra-todos, mas com escalões etários diferentes. Lembro-me de ver actuar “velhotes” como Rod Laver e Ken Rosewall, ao mesmo tempo que assistia a duelos entre, os então benjamins, Ilie Nastase e Adriano Panatta.

Estou plenamente convencido de que o público adoraria ver no Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp um grupo de mais de 45 anos com John McEnroe, Bjorn Borg, Jimmy Connors e Guillermo Vilas, tendo, paralelamente, a hipótese de testemunhar o excelente ténis que ainda são capazes de praticar Thomas Muster, Marcelo Rios, Goran Ivanisevic e Sergi Bruguera.

O único senão deste formato, é que não tem uma grande final. O vencedor do torneio é o primeiro classificado de cada grupo e tanto o público, como os patrocinadores e os media gostam de desfechos espectaculares. Como dizia a personagem de Salieri no filme Amadeus, de Milos Forman, «ele nem lhes deu um ‘big bang’, um grande ‘finale’», mas não foi por isso que Mozart deixou de conceber obras-primas.

 

 


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