Luso Ténis
 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
11º Artigo - Especial Vale do Lobo Grand Champions 2006
10 de Agosto de 2006


Corrida contra o tempo

Tommy Haas e Nicolas Kiefer nunca ganharam uma Taça Davis nem sequer chegaram à final. A situação é, no mínimo, estranha para jogadores que já foram, respectivamente, nº2 e nº4 do ‘ranking’ mundial e que, ainda por cima, pertencem à mesma geração.

Carl-Uwe Steeb nunca integrou o ‘top-ten’ mas ganhou por três vezes a “Saladeira”, ao lado de, ora Boris Becker, ora Michael Stich.

Mais tarde, já “reformado”, aceitou o cargo de capitão da selecção alemã e liderou Haas e Kiefer na Taça Davis durante três anos, mas é uma experiência que não lhe deixou quaisquer saudades.

«Ser capitão da Taça Davis envolve um prestígio enorme, mas é muito frustrante porque, na realidade, não temos qualquer poder, qualquer influência na preparação dos jogadores e no seu calendário. Na verdade, só estamos com eles durante aquela semana de cada eliminatória, mesmo se andarmos pelo Mundo fora a vê-los jogar nos principais torneios do circuito».

Steeb, que ganhou os dois primeiros encontros no Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp, e que, nesta noite de quinta-feira, irá decidir frente a John McEnroe o acesso à final, para saber quem defrontará Marcelo Rios, concorda que «a Alemanha deveria ter feito muito melhor na Taça Davis nos últimos anos», mas coloca imediatamente o dedo na ferida: «Falta espírito de equipa, não por parte de Tommy Haas, que até é um jogador de colectivo, mas da parte de Kiefer. A selecção alemã da Taça Davis deveria aprender o que é espírito de grupo com a equipa nacional de futebol, a ‘mannshaft’».

A declaração de ‘Charlie’ é curiosa, vindo de alguém que, na selecção, teve de aprender a lidar com egos desmesurados como os de Stich e, sobretudo, Becker, mas Steeb garante que «apesar disso», naquele tempo, «as coisas eram um pouco diferentes, porque o capitão era o Nikki Pilic e ele promovia estágios ao longo do ano nos quais todos nos reuníamos».

No fundo, o que Steeb quis dizer foi que, na Taça Davis, como em qualquer selecção, o espírito de equipa depende muito da capacidade de liderança. A analogia com o futebol foi feliz e, em Portugal, os próprios detractores de Scolari rendem-se à sua habilidade em gerir os egos das estrelas da selecção portuguesa de futebol (e não são assim tão poucas), sem nunca colocar em dúvida sobre quem é o líder. Steeb nunca soube impor-se como Pilic e saiu pela porta pequena.

Thomas Muster também assumiu em 2003 o posto de capitão da equipa austríaca da Taça Davis e, tal como Steeb, admite sentir uma grande «desilusão pela pouca força do cargo».

Mas, como sempre foi um lutador e não está habituado a baixar os braços, mantém-se à frente da selecção e acredita que poderá ajudar a melhorar o ténis no seu país.

Antigo nº1 mundial e campeão de Roland Garros, o ex-rei da terra batida, que considera «uma honra ser comparado a Rafa Nadal», sentiu mais facilidade do que Steeb em afirmar-se como o líder natural da equipa e já conseguiu «tomar conta do programa juvenil da Federação austríaca».

Thomas Muster lamenta «que as mudanças levem tanto tempo a fazer-se» e que «não haja um grande jogador austríaco neste momento, o que dificulta a tarefa», mas com a relativamente pobre matéria-prima de que dispõe, tem logrado o milagre de manter-se, ano após ano, no Grupo Mundial da Taça Davis, entre as maiores potências do Planeta.

Nesse sentido, Jurgen Melzer, Oliver Marach e Stefan Koubek, que nem figuram no actual ‘top-70’, têm dado lições a Haas e, principalmente, a Kiefer, dois jogadores que já começaram a correr atrás do tempo. «Agora, começam a olhar para trás, vêm os anos a passar e querem fazer algo de importante na Taça Davis, mas temo que seja tarde demais», afiançou Steeb.

Como muito bem sabem os “monstros sagrados” das raquetas presentes no Vale do Lobo Grand Champions Millennium bcp, o tempo é cruel e no ténis ainda mais. «Sei que tenho condições técnicas de jogar no circuito principal, mas também sei o que isso significa em termos de disponibilidade física e mental e já não sou capaz, nem quero fazê-lo», frisou Marcelo Rios, o nº1 mundial de veteranos, de apenas 30 anos. O tempo nunca volta para trás.
 

 


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