Home | Notícias | Jogadores | Entrevistas | Opinião | Resultados | Rankings | Selecção
 

              Opinião

 

 

  Menu de opinião 

Court & Costura
por Hugo Ribeiro
 
 
Deixem o Gastão ir surfar

16 de Abril de 2008HTML clipboard Artigos (de Maio 2006 a Abril 2008)

Não sei se fui o único a notar, mas quando na sala de conferências de Imprensa Gastão Elias foi interpelado sobre a sua programação mais próxima respondeu sempre no condicional: «deveria jogar quatro torneios seguidos na Europa,...».

O outro Gastão da mesma família estava sentado ao meu lado e perguntei-lhe: «Porque está ele a falar no condicional? Não vai jogá-los?».

«Ele está a precisar de uma semana de folga e é possível que não vá jogar tudo o que está previsto», disse-me o pai.

Desde já se diga, para que não me acusem de inconfidência, que este foi um dos temas mais abordados nas conferências de Imprensa do Portugal-Tunísia da Taça Davis, na semana passada e acrescento que o Gastão, pai, tem uma postura fantástica, pois quando fala, fá-lo sempre em seu nome e não pelo filho, não só por respeito ao jogador, mas também por toda a equipa técnica que o rodeia, essa sim, responsável pelo calendário competitivo da jovem promessa lusa.

No entanto, Gastão, pai, não estava mais do que a expressar algo que o próprio Gastão, filho, já me tinha dito na semana passada no Clube de Ténis do Estoril: «Desde a eliminatória da Taça Davis com a Holanda que não páro e com a recente lesão no joelho ainda foi pior». Atenção que estamos a falar de uma actividade permanente desde Setembro...

Ricardo Ycaza só há pouco foi contratado para orientar tecnicamente a carreira do jogador de 17 anos, ao abrigo da ligação de Gastão à Academia Nick Bollettieri (IMG) na Florida e, em conversa com alguns jornalistas portugueses, explicou que tem vindo a aprender como lidar com o seu “pupilo”.

Por exemplo, o trabalho efectuado entre a Taça Davis e o Estoril Open recaiu, sobretudo, na recuperação psicológica e, o certo, é que Gastão já apareceu muito melhor na primeira ronda do Jamor do que na última jornada do Estoril. Com mais chama.

«Aquilo que lhe perguntaste – disse-me Ycaza – sobre como era ele capaz de motivar-se para dias de treino que começam às seis da manhã e acabam noite dentro é muito importante. Aqui, no Estoril Open, já conversei mais com ele e tenho de fazê-lo muito mais. Começo a perceber como o Gastão funciona. Tecnicamente, ele tem muito potencial. Tacticamente ainda faz erros naturais dos 17 anos e fisicamente precisa de reforçar-se. Notei que não foi capaz de atacar algumas bolas porque para se fazer a transição da defesa para o ataque num único 'shot' é preciso um poderio físico que ele ainda não possui».

Nuno Marques contou-me este ano como foi a experiência de ter passado uns dias na Academia Bollettieri quando tinha dez anos e confessou que destestou. Nunca se colocou a hipótese – como com Gastão – de ficar a treinar lá a tempo inteiro, mas aquele que ainda é considerado o melhor tenista português de todos os tempos também nem queria pensar nisso.

Em 1990, na primeira das minhas dez visitas ao torneio de Key Biscayne, hoje em dia chamado de Masters Series de Miami, Andre Agassi, então muito jovem, contou numa conferência de Imprensa que, quando tinha 13 anos, «odiava tanto a vida na academia Bollettieri», pela extrema dureza diária porque passava, que decidiu treinar o mais possível e tornar-se num supercampeão. Era a forma mais fácil «de começar a jogar no circuito e sair dali o mais rapidamente possível». Aos 16 anos Agassi já jogava no ATP Tour e aos 17 era uma estrela.

Hoje foi publicado no Diário de Notícias um artigo de opinião onde me referia a algumas conversas que tive nestes últimos dias com o João de Sousa e o Rui Machado, sobre as suas vivências em Barcelona, primeiro na Federação Catalã de Ténis e depois na Academia Total Tennis. Vale a pena copiar aqui algumas dessas declarações.

«Quando chegava o Natal e via as iluminações, sentia saudades de casa», contou-me Machado, que passou sete anos em Barcelona, para onde foi aos 15.

Sousa também rumou a Barcelona aos 15 e, após três anos, a adaptação está concluída: «No início foi muito difícil. Estava só, numa cultura de treino intensivo. Foi um enorme esforço, mas valeu a pena».

E se Rui Machado já denotava desde jovem aquela caractrística inata de “raçudo”, que quase nunca vira a cara à luta, encontrando em Espanha «uma mentalidade semelhante e uma metodologia de treino que se adaptava na perfeição» à sua «fisionomia atlética», pois nunca será «um jogador muito alto e musculado», já João de Sousa admite que aprendeu «muito em Barcelona». Aquele adolescente temperamental de 15 anos é hoje em dia um jovem adulto de 19 anos determinado e concentrado no que quer fazer da vida.

Rui e João comeram o pão que o Diabo amassou para serem o que são hoje mas ambos voltariam a passar pelo mesmo calvário.

«Na altura, não tinha opção em Portugal, mas foi muito arriscado ir só para Espanha. Sei que agora há outras soluções em Portugal, como esta academia do João Cunha e Silva em Oeiras, mas para quê mudar se nesta altura se estou bem e sinto os frutos do trabalho?», perguntava-me João.

«Com todo o respeito pela minha equipa técnica actual, teria feito o mesmo, pois foi muito importante para mim estar num local onde bebia e comia ténis, de manhã à noite, podendo estudar ao mesmo tempo. Diria que, agora, a opção pela estrutura do João Cunha e Silva é a mais adequada para esta fase da minha carreira. Aos 24 anos, sinto-me mais adulto e consigo complementar tudo aquilo que aprendi em Espanha com o enorme profissionalismo do grupo de trabalho que encontrei em Oeiras», sublinhou Rui.

Há, por isso, que dar tempo ao tempo no que se refere à adaptação de Gastão Elias. Não é uma coisa de dias ou de meses. Rui e João levaram anos.

O seleccionador nacional, Pedro Cordeiro mostrou-se preocupado com a situação de evidente saturação competitiva em que se encontra o jovem, mas acredita que a equipa técnica do “puto-maravilha” saberá dar a volta à situação.

De qualquer modo, elogio Gastão por ter sido sincero com os jornalistas e ter admitido que, após a euforia dos primeiros meses, nem sempre está a ser fácil encontrar motivação para, nas palavras de Machado, comer e beber ténis de manhã à noite. E, aos 17 anos, as saudades de casa são normais. Sobretudo quando se tem uma família como a sua.

O importante é que Gastão nem pensa em deixar a experiência na Florida. Está apenas a procurar a melhor maneira de lidar com ela, como fez Andre Agassi há vinte anos.

Na minha opinião de leigo – e já o disse ao pai Gastão e ao treinador Ricardo Ycaza – o Gastão jogador deveria tirar a próxima semana de férias, ficar em casa, fazer como o Guga Kuerten quando andava farto de ténis, isto é, pegar na prancha e ir surfar para Peniche. Daqui a uma semana estaria como novo e pronto para atacar o resto da época.

Como escrevi hoje no Diário de Notícias, o rapaz tem potencial; oiçam o Roger Federer falar dele. Maria Sharapova, Nicole Vaidisova e Tommy Haas também já treinaram com “Pêpê”, mas, como ele confidenciou aos jornalistas, «esses nunca abrem a boca».



Content Management Powered by CuteNews
 
Artigos (de Maio 2006 a Abril 2008)

 

 

 
 

© Luso Ténis